sexta-feira, 15 de setembro de 2017



BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (II)
Por Renato Casimiro
Concluído seu curso normal, a professora Maria Gonçalves da Rocha Leal retornou a Joazeiro e já em 1924 ela participou do primeiro momento que redundaria na fundação do nosso Grupo Escolar, o primeiro estabelecimento educacional estadual da cidade que até então só contava com escolas particulares. Gonçalves, como já referimos, por seus méritos, pelo brilho de sua formação na Escola Normal, ficou conhecida do educador Lourenço Filho que nessa época estava dirigindo a Instrução Pública do Estado, no governo de Justiniano de Serpa. Isso rendeu a Gonçalves a escolha de sua fixação através da criação de uma cadeira pública onde desejasse. Ela preferiu sua terra, e em 1924 é nomeada como detentora da terceira cadeira docente da cidade sendo a responsável pela instalação da escola que funcionou até 1934, provisoriamente na esquina das ruas Padre Cícero e São Francisco (hoje a velha residência da família de José Viana de Sousa, mas que na época estava com a fisionomia antiga, um misto dos velhos casarões de José André de Figueiredo e do Cel. Fernandes). Somente onze anos depois é que o Estado do Ceará concluiria a construção da sua sede própria, na antiga Rua Santa Rosa (hoje Mons. Joviniano Barreto), como hoje o conhecemos, o eterno Grupo Escolar Padre Cícero, promessa política de vários presidentes do Estado, desde João Thomé de Saboia e Silva, passando por Justiniano de Serpa, Ildefonso Albano, José Moreira da Rocha, Eduardo Henrique Girão e José Carlos de Matos Peixoto. Em 28.09.1927, Pe. Cícero recebe um telegrama do Dr. Juvêncio Santana, Secretário do Interior, nos seguintes termos: “Diretor Instrução (Lourenço Filho) acaba me informar que por ato hoje, foi criado Grupo Escolar dessa cidade sendo nomeada Diretora, Profa. Maria Gonçalves pt. Para completar número professores necessário funcionamento Grupo, foi transferida de Araripe conforme pedido Pedro Silvino, D. Luiza Alencar e nomeada acordo sua promessa a Fenelon (Gonçalves Pita) D. Stela Pita pt. Presentemente não é possível outras nomeações. Saudações. Juvêncio Santana.” Em outubro de 1927 ela viajou para Recife, em tratamento de saúde, e foi substituída pela professora Leonina Sobreira Milfont. De volta do Recife, Maria Gonçalves reassume a sua função docente, embora não mais diretora e permanece no magistério até 1931. Nessa época, Lourenço Filho já havia deixado o Ceará e juntamente com alguns amigos como Anísio Teixeira e Fernando Azevedo eles conceberam o projeto histórico, denominado Escola Nova, segundo a qual, “...defendia a ideia da escola "sob medida", mais preocupada em adaptar-se a cada criança do que em encaixar todas no mesmo molde, e que julgava que o interesse e as atividades dos alunos tinham papel determinante na construção de uma "escola ativa". Entre 1928 e 1931, Gonçalves continuou sua dedicação ao magistério em sua cidade, quando procurou colaborar na reformulação pedagógica do ensino no Ceará, implementando procedimentos decorrentes da reforma Lourenço Filho. No período de 1932 a 1937, Lourenço Filho dirigiu o Instituto de Educação do Distrito Federal, no Rio de Janeiro e modificou a estrutura curricular do Curso Normal, tornando-o exclusivamente profissionalizante, e formulando um modelo para ser adotado nas unidades federativas. Por isso mesmo Lourenço Filho teve grande empenho para desencadear um processo de “formação de professores para a prática em sala de aula e para o domínio das competências profissionais.” Em 02.04.1932 o Governo do Ceará enviou ao Rio de Janeiro uma turma composta de dez professores primários para fazerem cursos especiais no Instituto de Educação. Dentre estas, duas eram de Juazeiro. Amália Xavier de Oliveira, então Diretora do Grupo Escolar, e Maria Gonçalves da Rocha Leal, professora do mesmo Grupo. Era então Diretor da Instrução o Dr. Joaquim Moreira de Sousa. Como em tudo que se atirou, Maria Gonçalves fez um curso brilhante e foi reconhecida pela direção da escola e do corpo discente por sua elevada performance. É dessa época que ganhou a referência de “Estrela do Ceará”. Aos olhos de Gonçalves o mundo parecia convergir para suas expectativas de realizar o possível para o desenvolvimento de sua cidade. Social e politicamente ela havia estado junto de importante movimento que redundara na formação da Associação Comercial de Juazeiro. Esse fato, de grande densidade política, face a existência do Deputado Federal Dr. Floro Bartholomeu da Costa, levara Gonçalves a se associar aos liderados de José Geraldo da Cruz para concluir pela fundação da Associação, construindo uma sede própria, na Rua São Pedro, que fora viabilizada a despeito da truculência do doutor coronel, porque Gonçalves havia cedido um terreno no qual se instalara a agremiação, congregando pequenos empresários do comércio local. Mas a sanha do coronel não cedeu a isso e a vingança veio no empastelamento do jornal O Ideal, mantido por Zé Geraldo, que afinal teve até que se afastar com sua família para fora do Juazeiro. Gonçalves foi poupada de qualquer revanchismo e assim continuou seu trabalho pela melhor expressão do setor educacional de sua terra, para o qual ela reservava as forças de seu entusiasmo. Procurando ser sempre discreta, como assim foi por toda a vida, ela era fiel a cada 24 de março, a presença certa no almoço anual da casa do Patriarca pela celebração de sua idade, quando os melhores amigos iam ali para celebrar a existência do velho padrinho. Figura sempre requisitada, presente em grandes momentos de sua contemporaneidade. Quem por exemplo lê um pouco da memória dessa cidade vai encontrar aí sinais de sua existência e de seu trabalho. Em 17.02.1932, por exemplo, foi inaugurado o primeiro Aeroporto de Juazeiro. Estiveram lá o Pe. Cícero, o prefeito Municipal Cel. Zacarias Albuquerque; o Juiz Municipal, Dr. Plácido Aderaldo Castelo e o Comandante da 7° Zona de Recrutamento Militar, Tenente Antonio Francisco da Silva. Aterrissou a aeronave “WACO 21”, pilotada pelo então tenente José de Macedo Sampaio (o cratense e depois brigadeiro Macedo) e pelo observador, 1° Ten. Nelson Wanderley. Um ato muito simples, mas tão grandioso para o futuro do Juazeiro, ficou para eternidade conforme os termos de uma Ata de Inauguração lavrada naquele momento pela professora Maria Gonçalves da Rocha Leal.

Na foto: Maria Gonçalves da Rocha Leal, na juventude, em Joazeiro, sem data

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 08.09.2017)


BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (III)
Por Renato Casimiro

Professora, eternamente, e com olhares presos a velhas dívidas para com o futuro de sua terra, Gonçalves viu nascer a Escola Normal Rural de Juazeiro, a primeira do gênero no pais. Em 09.12.1933, foi fundado o Instituto Educacional cujo principal objetivo já a antecipação para encampar a Escola Normal Rural que se pretendia inaugurar na cidade. Plácido Aderaldo Castelo, então juiz municipal, presidiu a sessão e, no dia 13.12.1933, foram lidos, discutidos e aprovados os estatutos da instituição e fixou-se o valor de 500$000 (quinhentos mil reis) a serem pagos por cada ação adquirida por acionista membro do referido Instituto. A sociedade foi fundada com uma quantia inicial de 30:000$000 (trinta contos de reis), contando com a colaboração dos seguintes membros fundadores: Dr. Plácido Aderaldo Castelo, 4 ações, Cr$ 2.000$000 (dois contos de reis); Antônio Gonçalves Pita, 3 ações, 1.500$000; Adília Sobreira, 1 ação, 500$000; José Francisco da Graça, 2 ações, 1.000$000; Francisco Néri da Costa Morato, 2 ações, 1.000$000; Amália Xavier de Oliveira, 4 ações, 2.000$000; José Bezerra de Menezes, 1 ação, 500$000; Nair Figueiredo, 2 ações, 1.000$000; Elza Figueiredo, 2 ações, 1.000$000; Dirceu Inácio de Figueiredo, 2 ações, 1.000$000; José Hermínio Amorim, 2 ações, 1.000$000; José Pedro da Silva, 2 ações, 1.000$000; José Pereira e Silva, 2 ações, 1.000$000; Dr. Manuel Belém de Figueiredo, 4 ações, 2.000$000; José Geraldo da Cruz (para sua filha Marieta Estácio da Cruz), 4 ações, 2.000$000; José Geraldo da Cruz (para sua filha Tarcila Estácio da Cruz), 4 ações, 2.000$000; José Geraldo da Cruz, 8 ações, 4.000$000; Dr. Jacinto Botelho de Sousa, 2 ações, 1.000$000; Dr. Mozart Cardoso Alencar, 1 ação, 500$000; Padre Cícero Romão Batista, 4 ações, 2.000$000; Dr. Juvêncio Joaquim de Santana, 2 ações, 1.000$000; Doroteu Sobreira da Cruz, 1 ação, 500$000. Essa composição do capital do Instituto foi excludente para Maria Gonçalves da Rocha Leal por motivos óbvios, a se reunir na justificativa dos parcos recursos de sua família, diferentemente de todos os que ai estão citados, empresários (comerciantes e agropecuaristas), profissionais liberais e funcionários públicos graduados, subscritores de si e de suas filhas. Graças a Deus existiram esses que não se fiavam apenas nas suas competências intelectuais e que deram um grande testemunho de interesse pelo desenvolvimento da terra. Pelos anos a dentro, Gonçalves lamentou que a sua não participação estivesse condicionada a esse critério. Tanto assim que não foi sequer convidada a integrar o quadro docente da nova Escola. Pelo Decreto 1.218, de 10.01.1934, com o Estado do Ceará sob a Interventoria de Roberto Carneiro de Mendonça, a ENR foi encampada. O primeiro diretor foi Dr. Plácido Castelo, até 23.11.1934. Com o retorno de Dr. Plácido a Fortaleza, assumiu o juiz Dr. Jacinto Botelho, até 11.01.1937, quando Amália Xavier de Oliveira foi nomeada, pelo Governador Menezes Pimentel, a nova diretora da ENR. A propósito dessa terceira nomeação, depoimentos importantes que ouvi na época, indicavam que Maria Gonçalves era o valor mais expressivo, a de melhor formação técnica e cultural para a constituição da primeira Escola Normal Rural do Brasil, efetivamente instalada em sua terra, em 13.06.1934. Divergências de ordem política impediram isso e Amália foi a escolhida. Até hoje só imaginamos, mas não sabemos aquilatar com precisão o que teria acontecido a essa escola, talvez existindo até hoje, como ainda existe a de Limoeiro do Norte, se tivesse acontecido uma decisão sensata de reunir Amália e Gonçalves no mesmo empreendimento, o que não aconteceu por intolerância de Amália. Em março de 1934 Maria Gonçalves foi trabalhar no Colégio Santa Teresa, em Crato. No mês seguinte, em abril, a Congregação criou o Jardim da Infância e designaram Gonçalves para dirigi-lo. E o fez exemplarmente, e inovando pela introdução de normas montessorianas. Por essa mente privilegiada muita coisa era entendida na ação docente e inovadora da professora que frequentemente surpreendia alunos e gestão. Maria Gonçalves, por exemplo, estabeleceu no dia a dia do Santa Teresa um programa denominado Hora Pedagógica, com o qual, semanalmente ela e o corpo docente exercitavam a necessidade de um momento para se fazer discussões, reflexões, planejamento e estudos voltados para a missão educacional, coisa que até era prevista em lei, e conceitualmente identificado com os propósitos da Escola Nova. Por sua voz esse era um dos diferenciais que tanto agregaram a matrícula do estabelecimento, sempre crescente e vistoso para a cena educacional do Cariri. O Santa Teresa viveu essa fase esplendorosa de toda a força de uma grande vocação de professores sintonizados com trabalho educativo. As relações de Gonçalves com o mundo exterior, muito além do Cariri, eram muito importantes, especialmente nos fins de anos letivos quando o Colégio recebia professores da Escola Normal Pedro II para presidir os exames finais. A matrícula da escola no ano de 1935 elevou-se para 341 alunas. E Maria Gonçalves era parte dessa liderança que justificava a qualidade do ensino que ali se praticava. Entre 1934 e 1937, Gonçalves se dedica mais intensamente ao magistério na cidade de Crato, quando colaborou na reformulação pedagógica do ensino no Ceará, implementando procedimentos decorrentes da reforma Lourenço Filho. Além de lecionar Pedagogia, Didática, Inglês e Francês no Colégio Santa Teresa, também o fazia para as duas línguas estrangeiras no Ginásio Diocesano. Bom dia.

Na foto: Maria Gonçalves participa do almoço em homenagem aos 90 anos do Pe. Cícero, em 24.03.1934.

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 09.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (IV)
Por Renato Casimiro

Na minha juventude, em diversas ocasiões ouvi menções a Maria Gonçalves. Nessas referências a maior ênfase era dada ao fato dela ter sido a fundadora e por dez anos a diretora da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte, no vale jaguaribano. Essa história foi detalhada a partir de um depoimento ao NUDOC-UFC, em 21.03.1984, prestado pelo ex-deputado Franklin Gondim Chaves. Segundo ele, nos anos 30 “o ambiente de Limoeiro do Norte, do ponto de vista cultural, era atrasado. Havia lá duas casas onde tinha estantes com livros: era a casa de seu padrinho, o vigário, e a casa de um advogado, José Osterne Ferreira. Havia uma escola primária só e um colégio à noite, de um rapaz que chegou lá em Limoeiro, mas muito atrasado.” Franklin ainda revela o seguinte no seu depoimento: “Ouvi falar que tinha sido fundada em Juazeiro, uma Escola Normal Rural. Com os contatos com a Ação Integralista, eu me dei muito com o Padre Helder Câmara. Nesse tempo o Padre era mocinho, tinha saído do seminário, inteligente, falava muito bem. Conversa vai, conversa vem, falamos da Semana Ruralista (Aliás, observo que a 1ª Semana Ruralista aconteceu em 22.07.1935). O Padre Helder Câmara fora convidado por Menezes Pimentel para ser Diretor da Instrução... Então ele disse: você não quer ir ver essa Semana Ruralista lá em Juazeiro? Eu não tinha nada com esse negócio de educação. Era comerciante, mas fui. Peguei o trem de Quixadá, eu fui no mesmo trem com eles... Foi quando conheci o Plácido Castelo. Nessa oportunidade conheci a D. Maria Gonçalves da Rocha Leal, uma professora ruralista que havia em Juazeiro. Então ela começou a contar o drama dela. Uma moça pobre, órfã, e ainda tinha duas irmãs, estudou com muita dificuldade, ajudada pelo Padre Cícero. Fez um curso de especialização no Rio de Janeiro, em ruralismo. Criaram a Escola Normal Rural, ela esperava ser convidada para ser diretora, não foi. Foi convidada a D. Amália Xavier, que era irmã de um Deputado Federal. Ela ficou traumatizada... Eu disse: D. Gonçalves, me diga uma coisa: se lá em Limoeiro a gente tivesse condições de fundar uma escola dessa, a sra. iria nos ajudar, lá? Ela disse: Vou. Eu vi naquilo uma possibilidade.” Aliás, Maria Gonçalves participou ativamente da Semana Ruralista, pois era a representante da Associação dos Empregados do Comércio de Crato, como palestrante e debatedora. Franklin ficou muito entusiasmado com a instituição que conhecera, uma escola cujo “modelo de ensino, que preparava moças para exercerem o magistério em pequenas cidades do interior.” Ao retornar para Limoeiro, ele convocou as lideranças da cidade para analisar a possibilidade de criação de uma escola semelhante à de Juazeiro. Decidiram ir adiante com o projeto de Franklin, constituíram uma Sociedade Pró-Educação Rural de Limoeiro, abrindo subscrições com as quais reuniram 29.000$000 (vinte e nove contos de reis), o suficiente para a aquisição de um terreno de cinco hectares (no futuro chegaria a 9 ha) e o início das obras da construção da escola. Na memória dessa escola, como encontraremos em Wikipedia, e sobre Gonçalves, Franklin deixou registrado: "Dentro de pouco tempo estávamos presos por uma grande amizade, e então, numa tarde morna de julho, abrigados a sombra de uma parceria os três nos encontrávamos. A palestra girou em torno de assuntos educacionais e D. Gonçalves apontava a necessidade de encaminhar-se o ensino no Brasil, por moldes novos, pois, a escola devia ser o pivô dos momentos de renovação nacional que se esboçava no País. O Pe. Hélder traçava planos e apontava os rumos que desejava dar à Instrução no Ceará. Tudo aquilo me entusiasmava e de tal forma, que propus criar uma Escola Normal, em moldes novos, aqui em Limoeiro. Aceita a ideia, ficou combinado o seguinte: eu fiquei com a responsabilidade de conseguir recursos necessários para a construção da escola; o Pe. Hélder incumbiu-se de fornecer a planta e de preparar o esboço do plano educacional; e D. Gonçalves comprometeu-se de vir dirigi-la." Por todas as gestões da Sociedade criada para esse fim, a Escola Normal Rural de Limoeiro foi instalada em 15 de fevereiro de 1938, e por ela, iniciativa privada, totalmente mantida. A sua oficialização, contudo, só ocorreu em 23 de Janeiro de 1939, quando o governo sancionou o Decreto Lei de nº. 485. Aliás, esse Decreto cria, nomeia Gonçalves e equipara a nova escola à pioneira, de Juazeiro do Norte. Dessa forma, pode-se ler nos anais da história do baixo Jaguaribe que a “criação de uma escola de formação do professorado rural constituiu evento de envergadura para ainda pequena cidade de Limoeiro do Norte.” Naquele dia de janeiro de 1939, segundo a memória do estabelecimento “Em um dos salões do Grupo Escolar Joaquim de Meneses, da cidade, com a presença dos srs. Custódio Saraiva, Prefeito Municipal, Manfredo Oliveira, Presidente da Sociedade Pró-Educação Rural de Limoeiro, várias professoras do Grupo Escolar, grande número de alunas e muitas pessoas gradas, realizou-se a sessão inaugural dos trabalhos da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte, fruto da cooperação do dinâmico povo Limoeirense.” Relembrando esse fato, eis o que relata Plácido Castelo, em 1951: “Concretizava-se o projeto de criação de uma Escola Normal Rural em Limoeiro do Norte. A Escola gozara de muito prestígio na região, sendo equiparada à de Juazeiro do Norte pelo seu idealismo e pelo tempo que perdurou fiel ao seu propósito de formação da professora rural. E é justamente a mestra vinda de Juazeiro do Norte que assumiu a tarefa de implementar uma escola nos moldes da escola caririense. Na solenidade de inauguração da ENRLN, a Diretora Fundadora, Dona Maria Gonçalves da Rocha Leal, proferiu eloquente discurso sobre o importante papel que competia essa escola de formação docente e o que ela representaria para o meio rural: “Mostrando a sua influencia como renovadora da mentalidade em geral, particularizou a missão socioeconômica desta mesma escola, preparando professores para o hinterland, dentro da sadia política da fixação do homem ao “habitat rural”. Vivamente aplaudida, a oradora perorou tecendo um hino elogioso ao povo limoeirense pela esplêndida iniciativa que naquele momento se concretizava e lembrou a todos o dever de ajuda-la, na alta missão a que tinha sido chamada, nesta cidade, numa cooperação feliz em que colocava em plano superior os interesses da Pátria e o respeito às nossas crenças religiosas...” Entre 1939 e 1948 Maria Gonçalves dirigiu aquela escola reunindo em torno de si uma enorme legião de alunos, professores e a população que até hoje, não se cansa de tributar-lhe um grande preito de respeito e admiração. Por todos era muito querida. Era “a estrela do Ceará” como lembraria uma de suas ex-alunas. Em 1973 eu ouvi parte dessa história, agora mais detalhada. Para me conta-la, seus olhos brilharam e algumas lágrimas ficaram no lenço que ela segurava com leveza e elegância. Disse-me por fim que em seu coração não cabia mais ressentimentos, pois tudo havia sido superado. E aí me contou finalmente que em 08.09.1941 ela voltou a Juazeiro com um grupo numeroso de estudantes da sua Escola, exatamente para visitar a ENRJN e sua diretora Amália Xavier de Oliveira. Hoje sabemos que a extraordinária experiência ruralista de Juazeiro do Norte, tendo à frente Amália Xavier de Oliveira, durou apenas 38 anos. É uma escola quase esquecida, e um ainda belo prédio abandonado. Também sabemos que a extraordinária experiência ruralista de Limoeiro do Norte, tendo à frente Maria Gonçalves da Rocha Leal, tem durado 78 anos. É um prédio antigo que permite que uma instituição viva e continue educando um povo que a edificou com tanto amor e zelo. Bom dia. 

Na foto, Maria Gonçalves quando assumiu a direção da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte, em 1938

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 10.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (V)
Por Renato Casimiro
Toda a formação clássica de Maria Gonçalves é fortemente impregnada do movimento ruralista no Brasil, através dos seus grandes porta-vozes, como Sud Menucci e muitos outros vinculados à Sociedade dos Amigos de Alberto Torres. As Semanas Ruralistas, por exemplo, ao lado de incentivar a formação voltada para o campo, com questões objetivas em muitas culturas, especialmente nas alimentícias, trataram de oferecer um painel realista das demandas com respeito à alimentação e nutrição, particularmente no Nordeste. Isso repercutiu até o centro do poder. O Decreto Lei Nº 2.478, de 05.08.1940, durante o governo Vargas criou o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS) no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Na sua redação, o Serviço era, “destinado principalmente a assegurar condições favoráveis e higiênicas à alimentação dos segurados dos Institutos e Caixas de Aposentadoria e Pensões subordinados ao respectivo Ministério.” Com o propósito de “propiciar aos trabalhadores alimentação adequada e barata, o Serviço promoverá: 1º, ampla divulgação, nos meios trabalhistas, das vantagens que o trabalhador de se alimentar convenientemente, bem como, nos meios patronais, da utilidade de se lhe garantir alimentação adequado e oportuna; 2º, a propaganda dos órgãos do Serviço encarregados do fornecimento de refeições aos trabalhadores; 3º, a formação, na coletividade, de uma consciência familiarizada com os aspectos e problemas da alimentação; 4º, a instalação e funcionamento de restaurantes destinados aos trabalhadores; 5º, o fornecimento de alimentos, por parte das empresas, nos refeitórios; 6º, a seleção dos gêneros alimentícios e o barateamento dos respectivos preços; 7º, o funcionamento dos órgãos necessários à integral execução dos seus trabalhos, conforme determinar o regulamento deste decreto-lei. A Escola de Nutrição Agnes June Leith, foi criada no Ceará em 17.08.1944, dentro do organograma do SAPS com o intuito de preparar mulheres jovens com formação normalista para atuarem na educação e mudança de hábitos alimentares dos operários, escolares e suas famílias. Localizava-se na rua Adriano Martins, 436, no Jacarecanga em Fortaleza, ao lado do restaurante do SAPS, que ficava na av. Francisco Sá. Nesse endereço, hoje, funciona o Colégio Militar do Corpo de Bombeiros do Ceará. Possuía salas de aulas, sala de estudo, diretoria, sala de costura, cozinha, biblioteca, almoxarifado, secretaria, horta e auditório com piano. Existiam acomodações para as alunas, quando havia internato. Em 1950, sob a direção de Maria Gonçalves, a Escola de Nutrição Agnes June Leith passou a ser denominada de Escola de Visitadoras de Alimentação – EVA. O nome Agnes June Leith fora uma homenagem à nutricionista americana do Curso de Economia Doméstica do Colégio Bennet (RJ), e foi uma incentivadora da mudança de hábitos alimentares desde cedo, trabalhando junto às crianças americanas para que elas incorporassem os novos hábitos alimentares à sua rotina diária. Ministrou também aulas de Economia Doméstica, em 1943, e Arte Culinária, em 1944, na sede do SAPS, no Rio de Janeiro, para o Curso de Auxiliares de Alimentação, do qual foi diretora em 1943. A EVA do Ceará foi inicialmente dirigida, entre 1944 e 1946, por Clara Sambaquy. Sucedeu-a Elerissa Ellery Barroso, nesse 1946. A terceira, também em 1946 até 1948 foi Maria Odete André Gomes. Maria Gonçalves foi a quarta na sucessão, entre 1948 e 1951. Não lembro exatamente como ela me teria dito como chegou lá, mas Gonçalves já era uma figura notável da educação no Estado e tinha uma extensa rede de relações. Em verdade, ela chegou à direção da Escola em 21.04.1948, depois da demissão da diretora que a precedeu, Maria Odete. Nessa menção sobre as diretoras da Escola, é oportuno citar também que Maria Semíramis de Oliveira Costa, sobrinha de Maria Gonçalves, posto que filha de sua irmã, Clara, foi uma das primeiras formandas pela EVA, na turma de 1951. Ela permaneceu na Escola, era docente, inicialmente na Creche do SAPS e depois em Educação Física e Recreação Infantil, foi sua última diretora, em 1966. Tanto como Escola de Nutrição, como Escola de Visitadoras de Alimentação – EVA, a instituição produziu frutos extraordinários para formar pessoal capacitado para as jornadas que se apresentavam para resolver as questões da nutrição e da alimentação nas comunidades nordestinas. A capacitação técnica do professorado era excelente, havia um intenso intercâmbio com outras escolas do pais e do exterior e ela participou ativamente das discussões que aprimoravam e instituíam no pais as formações de nutricionistas e de economistas domésticos. Pode-se encontrar na internet e vale muito a pena ver isso, um áudio visual muito interessante sobre essa instituição. De acordo com a indicação “Este filme mostra as fotografias da exposição da Escola de Visitadoras de Alimentação. As visitadoras de alimentação eram moças formadas pela Escola de Visitação Alimentar Agnes June Leith para desenvolver atividades de educação alimentar nos restaurantes populares e nos postos de subsistência do SAPS, mas principalmente junto às famílias de operários e trabalhadores do meio urbano e rural. Essa escola foi instalada na cidade de Fortaleza, Ceará, no ano de 1944, onde funcionou formando visitadoras de alimentação, até 1966, ano em que o SAPS entrou em processo de extinção.” Em meados de 1951, Maria Gonçalves deixou espontaneamente a direção da Escola de Visitação Alimentar, e foi ocupar novas funções, agora na ANCAR-CE, Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural. A EVA passou a ser dirigida por Aldenor Nunes Freire, entre 1951 e 1953; Nesse ano de 1953 teve mais dois diretores: Fernanda Gondim de Araújo e Djanira Figueiredo Rodrigues. Sucedeu Djanira, entre 1953 e 1966, a professora Eunides Maria Maia Chaves, por sinal, uma das filhas de um dos maiores amigos de Gonçalves, Franklin Chaves. Em 1966, como já mencionamos, e por curtíssimo tempo, a EVA foi dirigida por Semiramis, sobrinha de Maria Gonçalves da Rocha Leal. Bom dia.

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 11.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (VI)
Por Renato Casimiro
Já fizemos menção que Maria Gonçalves da Rocha Leal tinha como base da sua formação os cursos pedagógicos na antiga Escola Normal Pedro II (depois Escola Normal Justiniano de Serpa, Fortaleza), concluindo em 1923 e a sua especialização também em pedagogia no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, entre 1931 e 1932, com os professores Anísio Teixeira, Isaias Alves, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho. Esse primeiro e muito importante programa de treinamento incluía conteúdos como Biologia Educacional, Psicologia Educacional, Sociologia Educacional, História da Educação, Introdução ao Ensino (Princípios e Técnicas), Matérias de Ensino (Cálculo, Leitura e Linguagem, Literatura Infantil, Estudos Sociais, Ciências Naturais), e Prática de Ensino. De diversos outros cursos de alto nível, Maria Gonçalves foi aluna, como a seguir relato: Ainda dirigindo a Escola de Visitadoras de Alimentação - EVA, em 1949, ela fez o Curso Intensivo de Educação Alimentar, dirigido por nutricionistas do SAPS, no Ministério do Trabalho, no Rio de Janeiro. Esse curso tinha por objetivo formar pessoal qualificado para o Serviço de Alimentação da Previdência Social, recém-criado, pois era crescente a preocupação com o problema alimentar no País. Em 1949, o Decreto n.º 26.822 mencionava a carreira de nutricionista e exigia dos candidatos à nomeação no serviço público federal, para essa especialidade, diploma dos cursos mantidos pelo SAPS. Em 1951, antes de deixar a EVA cumpriu o Curso de Educação Nutricional, ministrado por nutricionistas do SAPS, no Ministério do Trabalho, no Rio de Janeiro. Em 1954, de 20.06 a 30.07, participou do Curso Intensivo de Economia Doméstica, em cooperação com a Escola Doméstica de Natal e a Associação de Crédito e Assistência Rural (ANCAR), em Natal. Em outubro de 1957, fez o Curso de Educador de Base na Campanha Nacional de Educação Rural, no Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro. Em 1960, fez o Curso de Ciências Domésticas, na Universidade de Porto Rico, em San Juan, dentro do Programa “Agricultural Home Economics Extension”. Em 1961, fez o Curso de Ciências Domésticas, na Universidade do Tenessee, em Knoxville, USA, oportunidade em que conheceu a extensão e o significado do Tenessee Valey Authority (TVA). Aí, Gonçalves conheceu um jovem mineiro, Allysson Paulinelli, da Escola Superior de Agricultura de Lavras, professor de hidráulica, de quem se tornou amiga, exatamente porque era um entusiasta da extensão rural no Brasil, tendo ela me confessado a grande satisfação de vê-lo chegar ao elevado posto de ministro da agricultura no governo Geisel. Na minha última visita que lhe fiz, Gonçalves leu para mim um pequeno trecho da correspondência em que o ministro, em resposta, agradecia a manifestação que ela fizera por sua investidura no cargo. Em 1962, foi aos Estados Unidos para participar do Curso de Comunicação, na Michigan State University, em East Lansing, com duração de 6 meses. Em 1963, participou do Curso de Aperfeiçoamento em Educação Rural e Florestal, na Universidade Rural do Estado de Minas Gerais. Em 1964, realizou o Curso de Aperfeiçoamento em Educação Rural na Universidade Federal de Minas Gerais, campus de Viçosa. Olhando de perto essa formação bem focada e esmerada de Maria Gonçalves, percebe-se que sua dedicação mais e mais se encaminhava para a educação rural, a economia doméstica e a extensão rural. E foi exatamente na Extensão Rural que Gonçalves dedicou boa parte do seu trabalho profissional de educadora. O serviço de extensão rural no Brasil teve inicio em 1948, em Minas Gerais, através da criação da Associação de Credito e Assistência Rural – ACAR. A extensão rural é parte integrante de uma estrutura econômico-social e, como tal, deve ser considerada como um dos elos de uma corrente de atividades necessárias para executar os planos de desenvolvimento agrícola e rural. Pelo sucesso da ACAR-MG, junto aos produtores rurais e suas famílias, em 1954 foi fundada a ANCAR – Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural. Entre 1953 e 1954, Gonçalves foi Assessora Técnica na instalação do Serviço de Extensão Rural no Nordeste, especialmente nos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Essa missão preliminar teria outros desdobramentos porque ela passou dez anos, entre 1954 e 1964 como Coordenadora dos Cursos de Treinamento de Economia Doméstica a cargo da ANCAR, bem como todos os programas de Economia Doméstica realizados pela ANCAR-CE, entre 1954 e 1966. E também colaborou com a instalação da Campanha Nacional de Educação Rural nos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. 

Por volta de 1959, Maria Gonçalves, então sediada em Recife e chefiando a área de recrutamento e treinamento da ANCAR, auxiliada por Yolanda Bezerra Furtado e Luiz Góes Vieira, ela veio ao Cariri para selecionar jovens vocacionadas para o magistério rural, dentre pessoas que haviam cursado a ENRJN ou outra formação de qualidade. Uma dessas jovens foi Maria Soares da Silva, minha tia, irmã de minha mãe, que seguiu o caminho dos treinamentos iniciais, entre Recife e Salvador. Outras jovens de Crato (Teresa Siebra, Teresa Pinheiro Teles) e Juazeiro (Tereza de Almeida Lavor, Luiza Morais Bezerra) também foram recrutadas e seguiram para Recife. Depois de ter passado pelos escritórios de alguns municípios baianos, como o de Coração de Maria, minha tia veio se fixar no Ceará, em Uruburetama, mas antes passando pelos escritórios de Baturité (supervisionado por Luiz Gonzaga Sales, irmão de Miranice Gonzaga Sales, ali também extensionista) e de Maranguape (supervisionado por José Waldir Pessoa, que no futuro seria secretário da agricultura do Ceará) e tendo Miranice como extensionista. Falar com elogios de Gonçalves nessa fase de ouro da extensão no Ceará era a voz corrente. Estimuladas por Gonçalves e com o apoio do então reitor Martins Filho, Miranice, Maria Iracema de Sá (cratense) e Fátima Sampaio (barbalhense) foram para os Estados Unidos e graduaram-se em 1967 em Home Economics Education (Educação em Economia Doméstica) pela Universidade do Arizona, em Tucson. Miranice, Iracema (ambas falecidas), e Fátima foram do primeiro time desse trabalho extraordinário de criação e manutenção do Curso de Economia Doméstica na UFC. Bom dia.

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 12.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (VII)
Por Renato Casimiro
Um dos fatos mais pitorescos da vida de Maria Gonçalves foi a sua participação como pedagoga numa banca de Concurso para a Cadeira de Didática da Escola Normal Justiniano de Serpa, em 1933. Esse concurso é referido na história recente do Estado do Ceará como o concurso de maior repercussão em toda a história. Nessa época Gonçalves estava dedicada ao Colégio Santa Teresa em Crato, mas era reconhecida em todo o Ceará como uma pessoa brilhante. Por isso mesmo foi chamada para integrar juntamente com João Hipólito de Azevedo e Sá, então diretor da Escola, José Leite Maranhão, Thomas Pompeu de Sousa Brasil, e José Martins Rodrigues, a banca do concurso posto mediante Edital, ao qual concorreram Heribaldo Dias da Costa, um pernambucano de grande inteligência e fama aqui no Ceará, Domingos Braga Barroso e o poeta Antonio Filgueiras Lima. O concurso, realizado no Teatro José de Alencar, em razão do grande interesse público por sua realização, já começou com declaração de suspeição, partida do candidato Domingos Braga, alegando que a banca estava comprometida com Heribaldo. Logo no dia da primeira prova, Domingo faz inflamado discurso de protesto e se retira da disputa. A primeira prova era a escrita e os concorrentes teriam que discorrer sobre as principais correntes da Educação. Como resultado a banca atribuiu as seguintes médias aos dois concorrentes: Antonio Filgueiras Lima: 9,687 e Heribaldo Dias da Costa: 9,062. A prova oral era constituída por duas etapas: uma em que teriam de dar uma aula expositiva para alunos do primeiro ano da Escola Modelo, tratando de História do Brasil e outra aula sobre Trabalhos Manuais para as alunas de Didática da Escola Normal. Os resultados finais apresentaram a seguintes médias: Antonio Filgueiras Lima: 10,45 e Heribaldo Dias da Costa: 10,35. Apesar do clima de cordialidade entre os competidores, Heribaldo entrou com um recurso contra a decisão final, junto à Interventoria do Estado do Ceará. O interventor federal, capitão Roberto Carneiro de Mendonça, em parecer datado de 15.12.1933, negou provimento ao requerimento, e com isso o resultado foi confirmado e o concurso foi concluído com a proclamação do vencedor, Antonio Filgueiras Lima, caririense de Lavras da Mangabeira que figura na história do Ceará como um dos mais brilhantes intelectuais e educadores. Maria Gonçalves ainda voltaria À Escola Normal Justiniano de Serpa para ser membro de uma outra banca, a que daria em 1950 a condição de catedrático a José Denizard Macedo de Alcântara, frente ao seu competidor, Walmik Sampaio de Albuquerque (ex-secretário da Educação do Ceará, no governo Faustino de Albuquerque). Em 1964, a convite da Universidade Federal do Ceará, a professora Maria Gonçalves coordenou a seleção de quatro jovens candidatas para a obtenção do grau de Bacharel em Ciências Domésticas, fruto do acordo da UFC com a Universidade do Arizona (EUA), e que resultaria, na prática, com o retorno dessas profissionais, com a constituição na UFC do curso de Economia Doméstica, em 1968, embora o primeiro vestibular só tenha sido realizado em 1972. Esse curso foi recentemente, em 2014, descontinuado, como assim também aconteceu em outras universidades. No caso da UFC, ele transformou-se em três outras graduações: Nutrição, Gestão de Políticas Públicas e Design de moda. Em 1974, Maria Gonçalves ainda colaboraria com a UFC integrando uma banca de seleção para professor junto ao Departamento de Economia Agrícola, do Centro de Ciências Agrárias, para a área específica de Organização e Administração do Lar. Dos prêmios, homenagens e reconhecimento a Maria Gonçalves, pela ordem do tempo relatamos: Em 1965 ela é reconhecida com a cidadania Limoeirense, pela Câmara Municipal, no dia 29 de agosto. Em 1972, por um Decreto Estadual, do dia 9 de outubro, assinado pelo governador Cesar Cals de Oliveira Filho, o Estado do Ceará distinguiu a professora Maria Gonçalves da Rocha Leal com a mais elevada honraria da educação, a Medalha Justiniano de Serpa. Convém lembrar que essa honraria havia sido criada no mês anterior, em 18 de setembro, pela Lei nº 9.619, exatamente para agraciar os membros do Magistério, personalidades ou instituições que prestam relevantes serviços à educação no Ceará. A entrega dessa medalha somente aconteceu no dia 15 de outubro de 1979, sete anos depois, e mesmo assim, por seu estado de saúde, bem debilitada, dona Gonçalves foi representada por sua sobrinha Terezinha Gonçalves Cavalcante. Em 28 de janeiro de 1973, em cerimônia acontecida no salão nobre do Palácio da Abolição, contando com a presença do ministro Jarbas Passarinho, da Educação e Cultura, Medalha Justiniano de Serpa foi entregue a diversos educadores cearenses que também contribuíram para o desenvolvimento do ensino no Ceará: Amália Xavier de Oliveira, Adélia Brasil Feijó, Antonieta Cals de Oliveira, Antônio Filgueiras Lima (post-mortem), Antônio Martins Filho, Antônio Martins de Aguiar e Silva (Martinz de Aguiar), Antônio Urbano da Silva, Luís Mozart da Costa e Silva (Mozart Solon), Otávio Terceiro de Farias, Paulo Sarasate Ferreira Lopes (post-mortem) e Raimundo Valnir Cavalcante Chagas. Essa Medalha ainda foi concedida em outras oportunidades a Adísia Sá, Lauro de Oliveira Lima, Pe. Luiz Rebufini, José Valdivino de Carvalho, Paulo Ayrton Araújo, Cláudio Martins, Odilon Braveza, Luis Sucupira, Cônego Misael Alves de Sousa, e outros que tanto honraram a causa da educação em nosso Estado. Em 1973, dia 23 de novembro, ao completar 84 anos, os funcionários da Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural – ANCAR, em Fortaleza, prestam-lhe significativa homenagem por seus 50 anos de magistério. Em 1974, a Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural – ABCAR confere-lhe a Medalha Wilson Cardoso Alves, pelos relevantes serviços prestados ao Sistema Brasileiro de Extensão Rural. Em 1975, o Conselho Departamental do Centro de Ciências Agrárias (CCA), da Universidade Federal do Ceará, em reunião de 28 de agosto, aprovou a criação de um prêmio denominado Maria Gonçalves, que se destinava a estimular o ensino e a pesquisa voltados para problemas de interesse regional, no âmbito do currículo do Curso de Engenharia de Pesca, que será oferecido ao aluno que mais se destacar no último semestre letivo do curso. O prof. Antonio de Albuquerque Sousa Filho, então diretor do CCA fez a comunicação oficial em 04.09.1975. Duas outras homenagens foram prestadas a Maria Gonçalves quando ela já se encontrava afastada de todos os encargos que assumira, especialmente com respeito à ANCAR. Foram as duas oportunidades em que ela retornou a Limoeiro do Norte nas datas de celebração dos 25 e 30 anos (respectivamente 1963 e 1968) da Escola Normal que ela ajudara a fundar e a dirigir. Nas duas ocasiões ela foi alvo de intensa manifestação de carinho por parte de professores, alunos e ex-alunos do estabelecimento. Postumamente, o nome de Maria Gonçalves da Rocha Leal foi aplicado à biblioteca da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte, a dois colégios estaduais (Limoeiro do Norte e Fortaleza), e a duas ruas (Juazeiro do Norte e Limoeiro do Norte). Bom dia.

Na foto: Na Celebração dos 25 anos da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte: Da esquerda para direita: Cônego Misael Alves de Sousa, Franklin Gondim Chaves, Francisco Nonato Freire (Mixico), Aurelice Arrais, Carmusinda Monte Arraes Freire, Maria Gonçalves da Rocha Leal, Maria Eunides Maia Chaves, Maria Creuza Marques Freire, Rosalba Monte Arrais.

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 13.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (VIII)
Por Renato Casimiro
Ao tentar reconstituir a trajetória de vida de Maria Gonçalves a primeira providência foi identificar pelo Cariri, e onde mais fosse, a sua parentela. E nisso fui bem satisfeito, não como genealogista pretenso, para anotar muitos detalhes da relação familiar, competências, datas e demais informações que importam na recomposição de uma autêntica árvore genealógica, mas para inclusive fazer chegar a esses seus familiares parte dessas revelações e descobertas que só confirmam o que a família mesmo tinha pleno conhecimento, sobre seu valor extraordinário como criatura. Encontrei em sua sobrinha Ieda Maria Neri Maia, filha de uma irmã – Elvira, a disponibilidade de me oferecer o maior número possível de dados que hoje são relativamente facilitados pelas redes sociais, pela web, pelas comunicações que nos colocam mais facilmente em contato com as pessoas. Assim, valho-me disso e desse início de conversa que tive com Gonçalves, ainda em 1973, com o qual ele me diz a sua origem de família, seus pais. Nisso lamento não ter aprofundado, indo em busca de seus remotos ascendentes. Antes de mais nada, convém relembrar que Gonçalves, Rocha, Leal, Teles, Bezerra de Menezes, Landim, Sobreira, etc. (não muitos) são a essência dessa etnia no Tabuleiro Grande, formando as famílias iniciais que povoaram as terras dos velhos Joazeiros, lugar de paragens de viajantes, no então oásis do Cariri, demandando para o Crato ou em busca dos sertões nordestinos, mais adentrados. Como tal, a partir de tão poucas informações quanto as necessárias, o que aqui se apresenta é um relato mínimo para configurar a tão desejada árvore. Ficam em dívida muitos dos detalhes sobre ascendentes, descendentes e colaterais, locais de nascimentos, falecimentos e vivência, dados sobre formação escolar e competências, e diversos dados outros geralmente interessantes para informar a própria família que nem sempre conhece os seus plenamente, especialmente os que nem privaram entre si. Na relação a seguir, destacamos as abreviaturas: P (pais: João Francisco / Maria Cândida); e a seguir, F (filhos); N (netos); Bn (bisnetos); Tn (trinetos). Seguem-se também as abreviaturas n: nascido(a); f: falecido(a); cc.: (casado(a) com); d.: (divorciado(a) de. Então, vejamos o que foi possível reunir, e agradecendo muito, destaco a extraordinária colaboração de Ieda Maia Neri (sobrinha de Maria Gonçalves), sem a qual nada disso se relataria.

GENEALOGIA DA FAMILIA GONÇALVES DA ROCHA LEAL

P: João Francisco Gonçalves da Rocha Leal, n. em Joazeiro, cc. Maria Cândida Gonçalves da Rocha Leal, n. em Joazeiro, pais de:

F.1: Maria Gonçalves da Rocha Leal, (“Tiêta”), professora, n. em 23.11.1899, em Joazeiro, f. em 17.02.1980, em Fortaleza, CE, e sepultada no Cemitério Parque da Paz, em Fortaleza, inupta; 

F.2: Elvira Gonçalves Maia, n. e f. em Juazeiro do Norte, cc. Francisco Maia, nascido em Morada Nova, pais de:

N.2.1: Antonio Haroldo Gonçalves Maia, cc. Terezinha Lisieux Coimbra Maia, pais de:

Bn.2.1.1: Lúcia Coimbra Maia Campos, cc. José Wagner Campos, pais de:

Tn.2.1.1.1: Maria Lisieux Coimbra Maia Campos; Tn.2.1.1.2:Luciana Coimbra Maia Campos;

Bn.2.1.2: Cícero Sávio Coimbra Maia; Bn.2.1.3: João Luiz Coimbra Maia;

Bn.2.1.4: Maria Aparecida Coimbra Maia, d., mãe de:

Tn.2.1.4.1: Maria Luisa Maia Santos;

N.2.1: Francisco Humberto Gonçalves Maia, cc. Círia Damasceno Maia, pais de:

Bn.2.1.1: Fred Damasceno Maia, cc. Darlene de Sousa Monteiro Maia, pais de:

Tn.2.1.1.1: Matheus Monteiro Maia; Tn.2.1.1.2: Maria Sofia Monteiro Maia;

Tn.2.1.1.3: Artur Monteiro Maia;

Bn.2.1.2: Flaviane Maia Campelo, cc. Francisco Delânio Campelo Almeida, pais de:

Tn.2.1.2.1: Francisco Humberto Gonçalves Maia Neto; Tn.2.1.2.2: João Vitor Maia Campelo;

Bn.2.1.3: Flávio Damasceno Maia, solteiro; Bn.2.1.4: Flaviano Damasceno Maia, solteiro;

N.2.2: João Hermano Gonçalves Maia, médico, residente em Morada Nova, CE, cc. Marluce Andrade Girão Maia (Família Girão – História e Genealogia, de Guilherme Girão, 2007) pais de:

Bn.2.2.1: Herluce Girão Maia, fisioterapeuta, cc. Dionísio Alípio de Oliveira Neto, pais de:

Tn2.2.1.1: Caio Hermano Maia de Oliveira; Tn2.2.1.2: Maria Clara Maia de Oliveira;

Bn.2.2.2: Germana Maia Gurgel, fonoaudióloga;

Bn.2.2.3: Gisele Maia Braga, dentista, cc. José Alexandre Mota Braga, pais de:

Tn.2.2.3.1: Priscila Maia Braga; Tn.2.2.3.2: Levi Maia Braga;

N.2.3: Luiz Homero Gonçalves Maia, cc. Luzia Menezes Maia, pais de: 

Bn.2.3.1: Luciene Menezes Maia, cc. em primeiras núpcias com Douglas, pais de:

Tn.2.3.1.1: Nicole Menezes;

Bn.2.3.1: Luciene Menezes Maia, em segundas núpcias, cc. Isael, pais de: 

Tn.2.3.1.2: João Luiz;

Bn.2.3.2: Luiz Menezes Maia, cc. Regina;

N.2.4: Emanoel Hélio Gonçalves Maia;

N.2.5: Paulo Hortêncio Gonçalves Maia, falecido inupto;

N.2.6: Antonio Eládio Gonçalves Maia, cc. Aldair Ferreira Maia, pais de: 

Bn.2.6.1: Élida Ferreira Maia Sales, cc. Augusto César de Vasconcelos Sales, pais de:

Tn.2.6.2.1: Beatriz Maia Sales; Tn.2.6.2.2: Gabriel Maia Sales;

Bn.2.6.2: Glícia Ferreira Maia Lemos, cc. José Silvio Monteiro Lemos, pais de:

Tn.2.6.1.1: Vitória Maia Lemos;

N.2.7: Ieda Maria Maia Neri, nascida em 07.08.1947, em Juazeiro do Norte, cc. Demerval Vasconcelos Neri, n. em 04.12.1947, em Juazeiro do Norte, empresário, residentes em Juazeiro do Norte, CE, pais de: 

Bn.2.7.1: Felipe Neri da Silva Neto, cc. Ilana Maria Brasileiro Maia, residentes em Senhor do Bonfim, BA, pais de:

Tn.2.7.1.1: Larissa Brasileiro Neri; Tn.2.7.1.2: Felipe Brasileiro Neri;

Bn.2.7.2: Christiane Maia Neri, biomédica, n. em 08.03.1974, cc. Pedro Natal Flores, empresário, n. em 08.1953, em Carlos Barbosa, RS, residentes em Juazeiro do Norte, CE, pais de:

Tn.2.7.2.1: Pedro Neri Flores, estudante, n. em 28.07.2009, em Barbalha, CE; 

Tn.2.7.2.2: Levi Neri Flores, estudante, n. em 28.07.2009, em Barbalha, CE;

F.3: Priscila Gonçalves da Rocha Leal, cc. Alírio, pais de:

N.3.1. João Perboyre; N.3.2. César; N.3.3. Carlos; N.3.4. Luiz; N.3.5. Arilo; N.3.6. Hélio; N.3.7. Terezinha; 

F.4: Clara Gonçalves de Oliveira, cc. (?), mãe de: N.4.1: José Gonçalves Oliveira;

N.4.2: Maria Semíramis Oliveira Costa; N.4.3: Odete Roseli Oliveira Costa;

N.4.4: José Olímpio Gonçalves de Oliveira; N.4.5: Orlando Gonçalves de Oliveira, solteiro, f.;

F.5: Luiz Gonçalves da Rocha Leal;

F.6: Antonio Gonçalves da Rocha Leal, cc. (?), pais de: N.6.1: Priscila; N.6.2: João.

Bom dia.

Na foto: Ieda Maria Maia Neri, nascida em 07.08.1947, em Juazeiro do Norte, cc. Demerval Vasconcelos Neri, n. em 04.12.1947, em Juazeiro do Norte, filho de Felipe Neri da Silva e de Maria (Lili) de Vasconcelos Neri, empresário, residentes em Juazeiro do Norte, CE,

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 14.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (IX)
Por Renato Casimiro
Do pouco que se tem escrito sobre esse fascinante perfil de mulher educadora e intelectual, tem sido possível garimpar algumas expressões da felicidade comum com aqueles que a conheceram. Eu pincei algumas dessas expressões e as transcrevo aqui, finalizando pela inclusão do que eu mesmo escrevi num artigo, tão modesto, inserto no Jornal do Cariri, quando do seu centenário.

“Desbravadora da inteligência, seu nome atravessou as fronteiras do Ceará com extensão nos estados limítrofes. O brilho do facho de luz por ela empunhado empanou as trevas, transubstanciando-as em valores de centenas de professores dignos e eficientes. Aí está o vulto inconfundível e iminente cuja vida imperecível a História guardará para enaltecer a educação do nosso Estado. Ela é Maria Gonçalves da Rocha Leal, Estrela do Ceará”.

(Carmusina Monte Arrais Freire, Limoeiro do Norte-CE)

“Maria Gonçalves não era apenas uma estrela a refulgir na pessoa da mestra. Ela era o saber manipulado pelo coração. Era justa sem ser inflexível, era compreensiva para com os erros alheios e severa para com os seus insignificantes deslizes. Soberanamente humana, compreendia e aceitava as fraquezas do próximo, sem guardar rancores ou ressentimentos aos agravos. Partiu sem levar em seu coração, mágoas e sem jamais ter permitido o exercício de qualquer tipo de vendita”. 

(Nilza Costa Negreiros Bessa, Limoeiro do Norte-CE)

“Importa não esquecer Ana Nery, exemplo ímpar de dedicação ao próximo... e, entre estas, que não são todas, alinhemos agora, o nome de uma outra mulher de talento e virtudes, Maria Gonçalves da Rocha Leal, com atuação marcante e influência estelar, como educadora emérita, no setor que a Providência se serviu de apontar-lhe”. 

(Dr. Hélio Ideburque Carneiro Leal, Fortaleza-CE)

“Inegavelmente, o trabalho da exímia mestra no campo da instrução e educação nesta região, foi dos mais edificantes, valendo ressaltar que, dezenas e dezenas de discípulas, vindas dos mais diferentes pontos do nosso Estado, colaram grau pela Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte e hoje ocupam cargos públicos de relevo em órgãos públicos e privados, além de brilharem no jornalismo”.

(Meton Maia e Silva, Limoeiro do Norte-CE)

“Maria Gonçalves da Rocha Leal, nome que escrevo com muito carinho e respeito, minha mestra cuja figura evoco num quando de relembranças que emoldura a minha juventude... Para mim ela era diferente das demais; o entusiasmo, as ideias, a convicção daquilo que pretendia fazer sem receio dos obstáculos que assomavam à sua frente. ...Foi um astro, pois, que surgiu no cenário educacional brasileiro cuja irradiação benéfica se reveste de calor e perenidade. 

(Risette Cabral Fernandes, Foraleza-CE)

“... Esta personalidade marcante e de real valor que honra as letras cearenses, foi a educadora Maria Gonçalves da Rocha Leal, filha ilustre da nossa Juazeiro do Norte, que pelos seus méritos foi colocada no panteon da Cultura Feminina do Ceará, e hoje decantamos as suas qualidades nobres, sua inteligência excepcional, o valor de sua cultura, a grandeza de suas belas realizações”.

(Elias Rodrigues Sobral, Juazeiro do Norte-CE)

“A professora Maria Gonçalves soube viver na realidade o sonho poético de Gabriela Mistral, para quem toda a natureza é um anelo de serviço... Sofria de ver a extensão rural inicialmente destinada a habilitar o agricultor e sua família nas atividades de produção, ir paulatinamente mudando de rumo. As escolas normais rurais foram riscadas, abolidos os seus programas e currículos, ao mesmo tempo em que se destruía toda uma infraestrutura assistencial com o abandono de suas bases físicas”. 

(Francisco Alves de Andrade, Fortaleza-CE)

“D. Maria Gonçalves tinha a capacidade de formar personalidades, descobrir valores e se impunha pelos seus próprios valores: cultura geral muito vasta, conhecimento profundo dos valores universais da pessoa humana que ela punha a serviço da causa e incutia es suas educandas o amor e dedicação às tarefas mais variadas em favor dos menos favorecidos. E mais, a sua maneira de ser despretensiosa, seu porte sem ostentação, com humildade, conseguia incutir no pessoal uma mística de servir a alguém, sem ver a quem”.

(Dom Eliseu Simões Mendes, Feira de Santana-BA)

“Surpreendeu-me, contudo, sua veia poética encontrada em material bem organizado, visando a publicação de um livro intitulado Mensagem, datado de 1974, cuja dedicatória é feita a amiga cratense Maria de Lourdes Esmeraldo. Nessa obra, todo o pensamento de Maria Gonçalves se alça como um pássaro liberto. São louvações que se transformam em reminiscências românticas”.

(Olga Monte Barroso, Fortaleza-CE)

"Quanto a D. Maria Gonçalves da Rocha Leal, você tem razão. Era uma gigante, física, moral e intelectualmente e tive o prazer e a dita de conviver com ela. Éramos quatorze jovens professoras na Escola Normal de Limoeiro do Norte, todas internas, mas com uma liberdade responsável. Saíamos nos fins de semana, íamos ao cinema e às festinhas, mas sabíamos que do nosso comportamento lá fora, brotava o exemplo para a totalidade das alunas. Grande mestra, grande educadora era D. Maria Gonçalves! Lembro-me de Terezinha e de Semíramis, as sobrinhas, estudantes naquela época".

(Telina Teles Lobo Mendes - cratense, residente no Rio de Janeiro, em carta a Napoleão Tavares Neves)

“Lembro do afeto que ela manifestava nesta sua ligação com Limoeiro do Norte, tendo para mim lido uns versos, talvez um soneto, que fizera para externar este encanto que marcara boa parte de sua existência. Falava com orgulho da evolução daquela cidade, de como havia encontrado e como estava hoje, um polo de desenvolvimento no vale jaguaribano. “Meu limão, meu Limoeiro... Como te vejo hoje ! Como te vi primeiro !” Este refrão nunca mais me saiu da cabeça, tal a sonoridade dos seus versos”. 

(Renato Casimiro, Fortaleza-CE))

Estamos quase concluindo aqui essa breve resenha sobre a vida e a obra de uma juazeirense muito ilustre, Maria Gonçalves da Rocha Leal. Muito mais se poderia dizer do seu percurso, do seu itinerário. Seguramente, as palavras a mais que se ajuntarem a esse relato modesto ainda serão para realçar e engrandecer sua existência. Bom dia.

Na foto: 1968: Festa de Formatura na Associação Cultural, baile dançante das professorandas e comemoração dos 30 anos da Escola Normal. Da esquerda para direita (em pé): Maria de Fátima Chaves, Dilce Lucena, Maria Gonçalves da Rocha Leal, Judite Chaves. Sentados (na mesma posição): Eunides Chaves, Cônego Misael Alves, Fernando Leite (reitor da UFC).

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 15.09.2017)

BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (X)
Por Renato Casimiro
Para finalizar essa série de textos, com o propósito de firmar modesto perfil sobre Maria Gonçalves da Rocha Leal, escolhi mencionar alguns flagrantes de sua atividade mais intelectual, entre o que sonhou, o que falou e o que deixou por escrito. Não foi uma mulher de relações amplas com as academias, mas por elas sempre mereceu reverências por serem sempre estribadas na sua competência, no brilho invulgar de uma inteligência que usou para o bem do Ceará. Assim, do seus escritos encontramos poesias, como essa dedicada às 

RENDEIRAS DO ARACATI

“Quem te ensinou / A criar beleza? / Tecendo fios, / Trocando bilros, / Sentada na areia, / Em frente à choupana, / Banhada das águas, das águas tão verdes, / Franjadas de espumas, / Que se rebatem, Em teus pés descalços?

Artista nasceste / E a vida tu levas / Do mar copiando / Os arabescos / Que as ondas deixando, / No frio areal, / Formando elas vão / Modelo ideal / De renda tão fina / Que imitam sem jaça, / Tão branca, tão pura, / Tão cheia de graça!

O sol, no ocaso, / Vai se escondendo / E os olhos apertas / Para o alfinete enxergar / Metendo-o na trança / Da renda que crias / Cantando, baixinho / A toada do mar. 

Na tela de grandes pintores / Teu rosto sem cores, teus dedos magoados / Outros verão / Em telas pintados, / Ornando um salão / Porque tu és símbolo / De um tempo passado, / No qual, recamado, / De brilho espontâneo, / Tua renda figura, / Como a mais pura / Das melodias da música de bilros / Que criaste, / Sentada na areia, / Qual outra sereia / Com que nunca sonhaste!”

Desde muito cedo, os que a ouviram falar em público encantavam-se com o seu linguajar, perfeito, preciso, oportuno, como alguns que o tempo não caducou. No início de 1930 o vigário da Paróquia de Nossa Senhora das Dores, Pe. José Alves de Lima reuniu um grupo de operários e fundou o Círculo de Operários e Trabalhadores Católicos São José. Nessa oportunidade foi escolhido o seu 1° Presidente, o Sr. Pelúsio Correia de Macedo, à frente de uma diretoria que também tinha a figura de Orador Oficial. Maria Gonçalves foi escolhida para tal. Uma das primeiras reuniões da agremiação aconteceu em 24 de março, quando o Círculo reuniu-se solenemente com toda a comunidade e prestou uma homenagem ao Revmo. Pe. Cícero Romão Baptista. Naquela ocasião, Maria Gonçalves foi a conferencista, pronunciando um discurso sob o título “A Vida Social sobre Alicerces Cristãos”. Algum tempo depois desse fato, esse discurso foi impresso num livreto (24 páginas), editado pela Tip. do Patronato, Rio de Janeiro. Dele pinçamos os seguintes trechos: “Enquanto o engenho humano vai se desenvolvendo em invenções que atingem o inatingível (admitam-me o paradoxo), enquanto sobre os mares cruzam verdadeiras cidades flutuantes; nos ares, rasgam as nuvens possantes aeronaves; na terra os sons atravessam em minutos os espaços ilimitados, nas ondas hertzianas e o espírito humano em lucubrações quer desvendar o infinito, os costumes vão descendo as escadas da degradação, as instituições vão perdendo o seu múnus de verdade e de justiça, os homens já sem consciência e sem razão, escravos das vilezas e das paixões, o homem mercenário vai voltando ao primitivo estado de barbaria.” ... “Meus Senhores do Círculo Católico: Perdoe-me se já vos cansei a paciência, mas eu não poderia partir daqui sem vos lembrar também que a ação católica social, em Juazeiro, espera muito de vós. De mãos dadas não aperteis a vossa cadeia dentro do pequeno recinto deste salão, mas alargai-vos nesta obra de saneamento de nossos costumes, nessa época avassalada pelo despudor do arrivismo!” Durante vários anos, Maria Gonçalves integrou a Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, fundada por Henriqueta Galeno, filha de Juvenal Galeno da Costa e Silva, em 1936, ainda hoje existente em Fortaleza e que ao longo do tempo tem congregado o que de mais expressivo se produziu intelectualmente, não só escrito por mulheres, mas também com grande parte de intelectuais de outras agremiações como a Academia Cearense de Letras, o Instituto do Ceará e muitas outras. Duas outras juazeirenses também integravam esse seleto hall da intelectualidade feminina: Amália Xavier de Oliveira e Tarcila Cruz Alencar, ambas educadoras da ENR de Juazeiro do Norte. Após seu falecimento, seu nome foi imortalizado como Patrona da Cadeira n° 53 da Ala Feminina. Também o Instituto do Ceará, na sua sessão de 21.02.1980 se associou às homenagens a Maria Gonçalves, em decorrência de seu falecimento. Naquele dia, como está na ata, “como conferencista, o sócio Francisco Alves de Andrade falou sobre o falecimento de dona Maria Gonçalves, pioneira da Educação Rural, exaltando a vida e a obra da eminente educadora. A seguir, e abordando a interessante palestra de Francisco Alves, Zélia Viana Camurça acrescentou que Maria Gonçalves foi Diretora da Escola Agnes June Leith e que, selecionada pelo seu trabalho na ANCAR, participou, em Brasília, do I Congresso sobre Desenvolvimento Social da Mulher, certame do qual a referida sócia participou, tendo apreciado, ali, o trabalho intelectual e humano da homenageada. O sócio Raimundo Teles Pinheiro se associou ao necrológio de Maria Gonçalves, louvando o seu trabalho.” O que mais consistente se publicou sobre Maria Gonçalves está num pequeno livro que tem o seu nome, escrito por Hélio Ideburque Carneiro Leal, editado em Fortaleza, em 1983. No prefácio, Nilza Costa Negreiros Bessa, sua afilhada, assim se expressa: “Ao final da década de trinta Limoeiro era uma cidadezinha de hábitos provincianos, pequenina e tristonha, dominada pela definição do certo e do errado no comportamento humano, fazendo com que as pessoas se preocupassem muito mais com a vida dos outros do que com as suas. Essa circunstância como que bloqueava a evolução do pensamento, obliterando a possibilidade de vir a urbe a ser, como hoje o é, capital da cultura, no vale. E a pessoa a quem se deve ter iniciado a grande metamorfose de Limoeiro foi, sem nenhum escrúpulo de faltar com a verdade, Maria Gonçalves. Por situação geográfica, Limoeiro desfrutava da soberania como região rica mas essa sua riqueza como que estava escondida num garimpo à espera de um faiscador.” Por fim, tomei para mim nesses dias a prazerosa missão de reencontrar Maria Gonçalves da Rocha Leal em esparsos registros escritos e na memória daquela curto tempo em que nos conhecemos, para ouvir seu relato de vida e obra, para sentir a fidalguia de seu acolhimento generoso, e para desfrutar do encanto de um perfil que se tornou inesquecível pelos caminhos de minha própria existência. De fato, se não fosse a única, como essa é a entusiasmada e justificada designação, ainda será lembrada como uma Estrela do Ceará. Bom dia.

Na foto: Durante as celebrações dos 30 anos da Escola Normal Rural de Limoeiro do Norte, Homenagem à profa. Maria Gonçalves. (Da esq. para a dir.): Raimundo de Castro e Silva, Francisco Erivano Cruz, Cônego Misael, Lenira Oliveira, Marta Freitas, Maria Gonçalves da Rocha Leal. 

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 16.09.2017)

O CINEMA ALTERNATIVO NO CARIRI

SESSÃO CURUMIM (EEF. JULITA FARIAS, CARIRIAÇÚ)
O Centro Cultural BNB promove de forma itinerante (Arte Retirante) uma sessão de cinema para crianças, denominada Sessão Curumim, com entrada gratuita, exibe no dia 8, quinta feira, às 8 horas, na E. E. F. Julita Farias, em Caririaçú, o filme ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in wonderland, EUA, 1951, 75min). Direção de Walt Disney. Sinopse: Alice (Kathryn Beaumont/ Therezinha) é uma garota curiosa e cansada da monotonia de sua vida. Um dia, ao seguir o apressado Coelho Branco (Bill Thompson), ela entra no País das Maravilhas. Lá ela conhece diversos seres incríveis, como o Chapeleiro Louco (Ed Wynn/ Otávio França), o Mestre Gato (Sterling Holloway/ José Vasconcellos), a Lagarta (Richard Haydn/ Wellington Botelho) e a Rainha de Copas (Verna Felton/ Sara Nobre).
CINE CAFÉ VOLANTE (CASA GRANDE, NOVA OLINDA)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, promove sessões semanais de cinema no seu Cine Café, na cidade de Nova Olinda (Fundação Casa Grande), com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no próximo dia 22, sexta feira, às 19 horas, o filme NUNCA ME SONHARAM (BRA, 2017, 84min). Direção de Cacau Rhoden. Sinopse: O documentário traça um panorama sobre o ensino médio nas escolas públicas do Brasil sob diferentes pontos de vista, principalmente a partir dos estudantes. Isso é mostrado através de relatos de jovens, professores, diretores de escolas e especialistas. O foco é o valor da educação; Os desafios do presente, as expectativas para o futuro e os sonhos de quem vive essa realidade.
CINE ELDORADO (JUAZEIRO DO NORTE)
O Cine Eldorado (Cantina Zé Ferreira, Rua Padre Cícero, 158, Centro, Juazeiro do Norte), com entrada gratuita e com a curadoria e mediação do prof. Edmilson Martins, exibe no dia 22, sexta feira, às 19 horas, o filme SISSI E SEU DESTINO (Sissi Schiksalsjahre einer Kaiserin,Alemanha, 1957, 109min). Direção de Ernst Marischka. Sinopse: Última parte da trilogia sobre a vida da jovem Elisabeth da Áustria (1837-1898), que viria a se tornar imperatriz e ficar conhecida apenas como Sissi. Romy Schneider é novamente a protagonista, aqui fazendo uma Sissi ainda com sua beleza jovial, feliz no casamento, mas agora madura e hábil nos negócios do Estado. Sissi, a Imperatriz Elisabeth da Áustria (1837-1898), amadureceu e tornou-se ainda mais bonita. Além de viver um casamento feliz, demonstra habilidade com os negócios de Estado. E, com sua força de espírito, precisa superar todas as adversidades e provar que seu destino é ser uma verdadeira Imperatriz.
CINE PARAÍSO (FAP, JUAZEIRO DO NORTE)
A Faculdade Paraiso do Ceará (FAPCE) está incluída no circuito alternativo de cinema do Cariri, embora seja restrito aos alunos desta Faculdade. As sessões são programadas pela Coordenação do Curso de Administração, para um sábado por mês, de 14:00 às 18:00h, na Sala de Vídeo da Biblioteca, na Rua da Conceição, 1228, Bairro São Miguel. Informações pelo telefone: 3512.3299. Neste mês de setembro, dia 23, estará em cartaz, o filme STEVE JOBS: BILLION DOLLAR HIPPY (EUA, 2011, 60mn). Sinopse: Documentário essencial na vida de quem deseja empreender e aprender um pouco mais sobre a vida desse fantástico empreendedor que foi Steve Jobs. O documentário junto com o filme, detalham bastante o que foi a vida dele e como e porque tudo começou. Até o nome de sua empresa, teve a sua origem revelada por meio deste documentário. A maneira como tudo em sua empresa está associada ao conceito de beleza merece um capítulo à parte.
CINE CAFÉ (CCBNB, JUAZEIRO DO NORTE)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, (Rua São Pedro, 337, Juazeiro do Norte), realizando sessões semanais de cinema no seu Cine Café, com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no dia 23, sábado, às 17:30 horas, o filme MÁ EDUCAÇÃO (La mala educacion, Espanha, 2004, 105min). Direção de Pedro Almodovar. Sinopse: Madri, 1980. Enrique Goded (Fele Martínez) é um cineasta que passa por um bloqueio criativo e está tendo problemas em elaborar um novo projeto. É quando se aproxima dele um ator que procura trabalho, se identificando como Ignacio Rodriguez (Gael García Bernal), que foi o amigo mais íntimo de Enrique e também o primeiro amor da sua vida, quando ainda eram garotos e estudavam no mesmo colégio. Goded recebe do antigo amigo um roteiro entitulado "A Visita", que parcialmente foi elaborado com experiências de vida que ambos tiveram. Goded lê o roteiro com profundo interesse. Este relata as fortes tendências de pedofilia que tinha um professor de literatura deles, o padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), que vendo Ignacio e Enrique em atitude suspeita diz que vai expulsar Enrique. Ignacio, sabendo que Manolo era apaixonado por ele, diz que fará qualquer coisa se ele não expulsar Enrique. Então Manolo promete e molesta Ignacio, mas não cumpre a promessa e expulsa Enrique. Goded decide usar a história como base do seu próximo filme e, por causa de um isqueiro, vai até a casa de Ignacio e constata uma verdade surpreendente.

NOVOS CIDADÃOS JUAZEIRENSES
Dois novos cidadãos juazeirenses. Recomendo de bom grado aos nobres vereadores para que façam uma mínima apresentação dos nossos homenageados, até no corpo destas resoluções. Infelizmente aqui e agora vão ficar apenas os nomes, pois os “inestimáveis serviços prestados à essa comunidade” ficam para ser esclarecidos depois, porque não é de todo importante. Vejamos os atos.

RESOLUÇÃO N.º 853, de 31.08.2017: Art. 1.º - Fica concedido o Título Honorífico de Cidadão Juazeirense ao Ilustre Senhor UDO LOHOFF, pelos inestimáveis serviços prestados à esta comunidade. Autoria: Glêdson Lima Bezerra; Coautoria: Damian Lima Calú; Subscrição: Francisco Demontier Araújo Granjeiro, Antônio Vieira Neto, Domingos Sávio Morais Borges, Cícero José da Silva, José Barreto Couto Filho, José David Araújo da Silva, José Adauto Araújo Ramos, José Tarso Magno Teixeira da Silva, Valmir Domingos da Silva, Rubens Darlan de Morais Lobo, Rosane Matos Macêdo, Auricélia Bezerra, Luciene Teles de Almeida e Jacqueline Ferreira Gouveia. 

RESOLUÇÃO N.º 854, de 31.08.2017: Art. 1.º - Fica concedido o Título Honorífico de Cidadão Juazeirense ao Ilustre Senhor JOSÉ MOURA VIEIRA, pelos inestimáveis serviços prestados à esta comunidade. Autoria: Luciene Teles de Almeida; Subscrição: Francisco Demontier Araújo Granjeiro, Domingos Sávio Morais Borges, Cícero José da Silva, José Barreto Couto Filho, José David Araújo da Silva, José Adauto Araújo Ramos, José Tarso Magno Teixeira da Silva, Valmir Domingos da Silva, José Nivaldo Cabral de Moura, Damian Lima Calú, Auricélia Bezerra, Rosane Matos Macêdo e Jacqueline Ferreira Gouveia.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017


BOM DIA!
A ESTRELA DO CEARÁ (I)
Por Renato Casimiro 
Maria Gonçalves da Rocha Leal, ou Maria Gonçalves, ou Dona Gonçalves, ou simplesmente Gonçalves, como vi diversas pessoas assim a tratarem, era uma juazeirense notável, aqui mesmo em sua terra, na juventude, e que se notabilizou mais ainda por galgar posições de grande relevo, tanto em sua terra, no Cariri, no Ceará e pelo Brasil. Talvez não seja estranho que reconheçamos que Maria Gonçalves, pela trajetória que cumpriu, especialmente como educadora, tenha ótimas referências em alguns setores pelo mundo. Conheci-a, pelos anos 70, e isso foi um enorme privilégio. Ficou por esses anos a imagem cristalina de uma mulher extraordinária, da qual o seu Estado muito deve se orgulhar. Vários anos depois de sua morte, seu nome estava fixado num edifício junto ao meu trabalho na UFC, nomeando o Centro Acadêmico (CA) do Curso de Economia Doméstica, do Centro de Ciências Agrárias, hoje extinto (na verdade, substituído pelo de Gastronomia). Para meu espanto, os que assim procederam, com esse batismo meritório, não conseguiam explicar mais fartamente a razão desse amadrinhamento, a não ser que ela tenha sido muito importante para a constituição daquele curso. E isso era muito pouco para seu perfil. Aliás, por minha iniciativa, já que tinha em arquivo, eu doei para uma parede do CA uma das duas fotos que tinha na época (essa que aí está encimando), em reprodução de grande tamanho, porque nem isso lá existia. Espero que ainda exista, pois a iniciativa visava também preparar a casa para a celebração do centenário de nascimento de sua madrinha, tão desconhecida. Terminaram por me fazer orador oficial da cerimônia, exatamente no dia 23.11.1999, uma terça feira à tardinha. E para não esquecer jamais, eu tive que deixar toda a assistência presa à leitura de minhas notas para exaltar a amiga que tivera por tão pouco tempo. Conheci Gonçalves em meados de 1973, mas somente até 1976 estive em visita à sua residência, diversas vezes, na Rua Joaquim Alves, 66, aprazível apartamento 122, do Ed. Tabajara, na Praia de Iracema. Como entre janeiro de 1977 e dezembro de 1980, eu passei a residir em São Paulo, estudando para o doutoramento na USP, perdi Gonçalves de vista, e essa amizade não se estendeu, me rendendo apenas, no início de 1980, exatamente no dia 17 de fevereiro, a triste notícia de seu falecimento. Na primeira visita que lhe fiz, num sábado à tarde, ingenuamente eu lhe pedi que me contasse sua história. Fez-se na sala um intervalo silencioso que se quebrou quando ela, visivelmente emocionada, me disse: “Eu nasci em Joazeiro, em 23 de novembro de 1899. Tenho 84, quase 85 anos, e sou um dos frutos do amor que houve entre Cândida da Rocha Leal Gonçalves e João Francisco Gonçalves...” À noitinha, saí dali carregando na mão papeis cheios de notas e na alma o sentimento de que seria necessário fazer de tudo para jamais esquecer aquele encontro. Na semana passada dois momentos me fizeram recordar a grandeza de sua existência. No primeiro deles, reencontro os apontamentos que tomei numa dessas visitas, aperreando lhe o juízo, para conhece-la ainda mais, pelo lado de uma biografia exemplar, e que tocava, especialmente a sua origem juazeirense, a sua formação educacional, a experiência profissional que recheara sua existência, as distinções que merecera, e um pouco de sua contribuição às letras, entre a prosa e o verso. Intrigava-lhe, na sua modéstia, que eu abrisse bloco de notas e fosse copiando as informações que me passava, com certa timidez, muito típica – diga-se, daquelas pessoas muito simples, característica bem vistosa de valores excepcionais. Gonçalves era isso, já me advertira Pe. Azarias Sobreira ao me encaminhar para esse encontro, e ao meu juízo mais superficial, alguém que não gostava de falar de si, não bastassem as evidências tão bem justificadas. As primeiras letras Maria Gonçalves conseguiu lê-las na escola da “beata Cotinha”, Maria Cristina de Jesus Castro, uma potiguar diplomada pela Escola Normal de Natal. Nessa época, Joazeiro tinha outras opções, como as escolas de José Marrocos (o Pedagógico, anexo da Capela), e as outras escolas particulares, como a de Josefa de Alcântara Leite (Dedé Leite), a do mestre Guilherme Ramos de Maria, a de Maria Luiza Furtado, a de Raimunda Lemos, etc. Mais objetivamente, principio por rememorar a sua formação mais relevante, assim me diria, a de um curso pedagógico. Sua primeira inclinação foi de escolher, dentro da escola pública a melhor opção. E ela estava na Escola Normal, em Fortaleza. Então, entre 1919 e 1923 ela cumpriu com brilhantismo esse início da sua formação profissional como educadora. Ao finalizar a jornada destacou-se como a primeira da classe, e ganhou o privilégio de ser a oradora da turma, paraninfada pelo grande cearense Antonio Theofilo da Justa Gaspar de Oliveira. Isso aconteceu na então Escola Normal Pedro II, que nessa época funcionava no pavimento térreo do então Fenix Caixeiral (Rua Guilherme Rocha esquina com Rua 24 de Maio). Ainda em 1921 Gonçalves conheceu o jovem Manoel Bergstrom Lourenço Filho, paulista que havia cursado Escola Normal, mas também cursaria Direito e Medicina. Brilhante, ele foi contratado pelo Estado do Ceará para dirigir a Instrução Pública do Estado e foi seu professor na Escola Normal. Seu trabalho durou dois anos e meio no Ceará, e uma ocasião veio a Juazeiro, e dessa incursão publicou um livro muito polêmico denominado Juazeiro do Padre Cícero. Esse prévio conhecimento com Lourenço Filho resultou noutra importante etapa da formação intelectual de Maria Gonçalves que ela viveria no Rio de Janeiro, entre 1932 e 1933, como ainda veremos. Bom dia.

(Postado em Facebook: https://www.facebook.com/renato.casimiro1, em 07.09.2017)

O CINEMA ALTERNATIVO NO CARIRI

CINE JURIS (FAP, JUAZEIRO DO NORTE)
A Faculdade Paraiso do Ceará (FAPCE) está incluída no circuito alternativo de cinema do Cariri, embora seja restrito aos alunos desta Faculdade. As sessões são programadas pela Coordenação do Curso de Direito, para um sábado por mês, de 8:30 às 11:30h, na Sala de Vídeo da Biblioteca, na Rua da Conceição, 1228, Bairro São Miguel. Informações pelo telefone: 3512.3299. Neste mês de setembro, dia 9, estará em cartaz, o filme A CHEGADA (Arrival, EUA, 2016, 116min). Direção de Denis Villeneuve. Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.
CINE GOURMET (FJN, JUAZEIRO DO NORTE)
A Faculdade de Juazeiro do Norte (FJN) agora também está incluída no circuito alternativo de cinema do Cariri. As sessões são programadas para as terças feiras, duas vezes ao mês, de 15:00 às 17:00h, no Auditório do Bloco I, na Rua São Francisco, 1224, Bairro São Miguel, dentro do seu Projeto de Extensão denominado Cine Gourmet, sob a curadoria de Renato Casimiro. Informações pelo telefone: 99794.1113. No próximo dia 12, estará em cartaz, o filme A FESTA DE BABETE (Babettes gæstebud; Dinamarca, 1987, 103min). Direção de Gabriel Axel. Sinopse: Em 1871, em noite de tempestade, Babette (Stéphane Audran) chega a um vilarejo na Dinamarca, fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel), filhas de um rigoroso pastor. Ali ela vive por doze anos, até que um dia fica sabendo que havia ganhado uma fortuna na loteria e, ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração aos centésimo aniversário do pastor. A princípio, os convidados ficam assustados, temendo ferir alguma lei divina ao aceitar um jantar francês, mas acabam comparecendo e se deliciam com a festa de Babette.
SESSÃO CURUMIM (CARIRIAÇÚ)
O Centro Cultural BNB promove de forma itinerante (Sessão Curumim) uma sessão de cinema para crianças, com entrada gratuita, exibe no dia 12, terça feira, às 8 horas, na E. E. F. Julita Farias, em Caririaçú, o filme O MÁGICO DE OZ (The Wizard of Oz, EUA, 1939, 101 min). Direção de Victor Fleming. Sinopse: Em Kansas, Dorothy (Judy Garland) vive em uma fazenda com seus tios. Quando um tornado ataca a região, ela se abriga dentro de casa. A menina e seu cachorro são carregados pelo ciclone e aterrisam na terra de Oz, caindo em cima da Bruxa Má do Leste e a matando. Dorothy é vista como uma heroína, mas o que ela quer é voltar para Kansas. Para isso, precisará da ajuda do Poderoso Mágico de Oz que mora na Cidade das Esmeraldas. No caminho, ela será ameaçada pela Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que culpa Dorothy pela morte de sua irmã, e encontrará três companheiros: um Espantalho (Ray Bolger) que quer ter um cérebro, um Homem de Lata (Jack Haley) que anseia por um coração e um Leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem. Será que o Mágico de Oz conseguirá ajudar todos eles?
SESSÃO CURUMIM (JUAZEIRO DO NORTE)
A Sessão Curumim também ocorre no próximo dia 14, quinta feira, às 14 horas, no Orfanato Jesus Maria José (Rua Cel. Antonio Pereira, 64, Santa Tereza, em Juazeiro do Norte, o mesmo filme 14h - O MÁGICO DE OZ (The Wizard of Oz, EUA, 1939, 101 min). Direção de Victor Fleming (mencionado antes)
CINE CAFÉ VOLANTE (URCA, MISSÃO VELHA)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, promove sessões semanais de cinema no seu Cine Café, na cidade de Missão Velha (URCA, Campus Missão Velha, Rua Cel. José Dantas, 932 – Centro), com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no próximo dia 14, quinta feira, às 19 horas, o filme TEMPOS MODERNOS (Modern Times, 1936, EUA, 83min). Direção de Charles Chaplin. Sinopse: Um operário de uma linha de montagem, que testou uma "máquina revolucionária" para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela "monotonia frenética" do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não tem mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar.
CINE CAFÉ VOLANTE (CASA GRANDE, NOVA OLINDA)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, promove sessões semanais de cinema no seu Cine Café, na cidade de Nova Olinda (Fundação Casa Grande), com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no próximo dia 15, sexta feira, às 19 horas, o filme A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois couleurs: Rouge, FRA, 1994, 100 min). Direção de Krzysztof Kieslowski. Sinopse: Uma modelo (Irène Jacob) atropela o cão de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant), que tem o estranho hábito de ouvir as conversas telefônicas de outras pessoas. Este fato será o ponto de partida para uma singular amizade.
CINE CAFÉ VOLANTE (FAMED, BARBALHA)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, promove sessões semanais de cinema no seu Cine Café, na cidade de Barbalha (Auditório da Faculdade de Medicina), com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no próximo dia 15, sexta feira, às 19 horas, o filme DÚVIDA (Doubt, EUA, 2008, 104 min). Direção de John Patrick Shanley. Sinopse: 1964. O carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx. A diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. Um dia a irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas sobre o padre Flynn, de que esteja dando atenção demais a Donald. É o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola.
CINE ELDORADO (JUAZEIRO DO NORTE)
O Cine Eldorado (Cantina Zé Ferreira, Rua Padre Cícero, 158, Centro, Juazeiro do Norte), com entrada gratuita e com a curadoria e mediação do prof. Edmilson Martins, exibe no dia 16, sexta feira, às 19 horas, dentro do Festival Mazzaropi, o filme BETÃO RONCA FERRO (BRA, 1970, 100min). Direção de Geraldo Affonso Miranda. Sinopse: Betão (Mazzaropi) trabalha em um pequeno circo mambembe e tem seu emprego ameaçado depois que sua filha se casa e deixa o espetáculo.
CINE CAFÉ (CCBNB, JUAZEIRO DO NORTE)
O Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, (Rua São Pedro, 337, Juazeiro do Norte), realizando sessões semanais de cinema no seu Cine Café, com entrada gratuita e com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, exibe no dia 16, sábado, às 17:30 horas, o filme AMADEUS (Amadeus, EUA, 1984, 160 min). Direção de Milos Forman. Sinopse: Após tentar se suicidar, Salieri (F. Murray Abraham) confessa a um padre que foi o responsável pela morte de Mozart (Tom Hulce) e relata como conheceu, conviveu e passou a odiar Mozart, que era um jovem irreverente mas compunha como se sua música tivesse sido abençoada por Deus.
CINE GOURMET
A partir do próximo dia 12 de setembro, a Faculdade de Juazeiro do Norte iniciará a execução do Projeto de Extensão denominado Cine Gourmet. São seus objetivos: Constituir no âmbito da FJN uma atividade de Cine Clube, aberto, e voltado para a sua missão de IES através dos seus cursos de Graduação e de Pós Graduação; Estender sua realização a estudantes, professores, funcionários e demais interessados nas áreas de gastronomia, história, cinema, educação, cultura e arte; Exibir 20 (vinte) filmes previamente selecionados, constante da programação 2017-2018 (vide abaixo), em 12 meses; Realizar debates tendo como base os filmes apresentados ao público, como oportunidade para a manifestação de opiniões, dúvidas e sugestões; Compor a atividade com uma degustação de preparos típicos apresentados no filme e produzidos por alunos de gastronomia sob a supervisão de seus professores. O Projeto se justifica pela grande valia que o cinema, como arte, estética, linguagem e recursos audiovisuais empresta ao aprendizado de conteúdos, tanto na sociedade, como atividade diversional e cultural, como também pela sua adequação e versatilidade na sala de aula. Desse modo, o Projeto pretende dinamizar e potencializar os esforços em torno da graduação específica, Nutrição e Farmácia, e brevemente, Gastronomia, levando, igualmente, a ser instrumento ágil e eficiente para ampliar os resultados sobre as atividades acadêmicas de ensino-aprendizagem para outras formações profissionais. A metodologia a ser utilizada assim se descreve: Apresentação das atividades: Seleção de filmes, Programação (calendário, datas, horários, locais); Divulgação das atividades, mediante a veiculação midiática (rádio, jornais, tv, redes sociais, sites na web, cartazes, textos e comentários, com a antecipação mínima de uma semana do evento; Composição prévia de uma mesa de debates organizada com a participação de docentes da instituição e outros convidados; Exibição de filmes previamente selecionados em espaço reservado da Faculdade de Juazeiro do Norte, em datas e horários estabelecidos; Debates sobre a gastronomia, a história, a cultura, a arte, a educação e o cinema tendo como base os filmes apresentados ao público e as leituras previamente sugeridas. A coordenação desse Projeto está a cargo de Renato Casimiro. As atividades acontecerão no Auditório da FJN, à Rua São Francisco, 1224, Bloco I, 1º andar, às terças feiras, de 15 às 17 horas. Veja a Programação prevista para as exibições de filmes

FESTA ALAGOANA PARA ANNETTE
A Câmara Municipal de Maceió concedeu no dia 5, passado, às 9h, a Medalha Padre Cícero à irmã Annette Dumoulin. A honraria foi proposta pelo vereador Francisco Sales (PPL) e aprovada por unanimidade pelo Plenário da Casa. A medalha foi instituída pelo Decreto Legislativo nº 605, de 8 de janeiro de 2017, e conferida aos cidadãos que possuírem relevantes serviços religiosos prestados à sociedade maceioense. Familiares, amigos e religiosos foram convidados a participar da homenagem. Anne Dumoulin nasceu no dia 14 de julho de 1935, na cidade de Liége, na Bélgica, um ano após a morte do padre Cícero. Em 1955, se formou em educação física, na Bélgica, e em 1958 graduou-se em Ciência da Religião, pela Universidade Católica de Louvain, seguida também da formação em Psicologia da Religião, obtendo os títulos de mestre e doutora em Ciência da Educação com especialidade em Psicologia da Religião pela mesma Universidade Católica de Louvain. Ela descobriu sua vocação para a vida religiosa, sendo consagrada no dia 1º de janeiro de 1960. Chegou ao Brasil para estudar e pesquisar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) e foi morar na periferia do Recife (PE) sob os cuidados de Dom Helder Câmara. Na convivência com o povo, descobre a figura do padre Cícero, de Juazeiro do Norte. Em 1976, irmã Annette pediu exoneração como professora da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica e mudou-se para Juazeiro, onde há 41 anos dedica-se à causa da romaria e dos romeiros.
ANÁLISE DA OBRA DE IR. ANNETTE DUMOULIN
A propósito de Ir. Annette Dumoulin, recebemos e temos o prazer de aqui reproduzir uma belíssima análise do seu livro mais recente, “Padre Cícero, santo dos pobres, santo da Igreja: revisões históricas e reconciliação. Annette Dumoulin. – São Paulo: Paulinas, 2017”. Feita por Francisco Salatiel de Alencar Barbosa (Brasilia). 

Trata-se de uma obra atraente do começo ao fim e de fácil leitura, pois a autora mantém, em grande parte de seu texto, o tom de conversa, documentada na abundante correspondência do Padre Cícero ou nos diálogos fictícios com romeiros. Verdadeira peregrinação com subidas, descidas e paradas para descanso. Caminhada que exige fôlego. A irmã romeira tem um perfil vibrante e é capaz de, indignada, conter sua emoção numa explosão de protesto diante de aberrações. Foi o que percebi, quando do encontro das religiosas com o Cardeal João Braz de Aviz, no mosteiro das beneditinas, em Juazeiro (2014). E ela desabafa: “Prefiro não expressar aqui a reação que tive ante essa revelação”.

Adianto que meu comentário não é resenha da obra, mas impressões variadas. A Irmã Annette é muito mais que romeira. Seu papel, para mim fundamental, assemelha-se ao que foi exercido pelo bispo de Calama, Possídio, que – mesmo na atmosfera de terror com a invasão do Norte da África pelos Vândalos – teve o cuidado de organizar o Catálogo (Elenchus) das obras de Agostinho, já prostrado e à beira da morte (28-8-430). Verdadeira fortuna crítica, pois Agostinho é o único Padre da Igreja Latina, cuja obra chegou-nos quase completa e não cessa de crescer. Haja vista o achado estupendo, na década dos anos 80, de cerca de 26 sermões desaparecidos e de mais de 30 cartas perdidas nos acervos das municipalidades de Mogúncia (Mainz-Alemanha) e de Marselha (Françca) e já utilizado na revisão histórica de um Agostinho que não se revelava apenas o grande teólogo da graça, mas o pastor aflito e apegado a seu rebanho. De acordo com as monumentais biografias de Peter Brown (Santo Agostinho: uma biografia. Trad.inglês. RJ/SP: Ed. Record, 2005) e de Serge Lancel (Saint Augustin. Paris: Fayard, 1999), que já se serviram das coleções críticas desses achados, Agostinho de Hipona, como o Cícero do Juazeiro, recusou-se a fugir da sede de sua diocese, quando o cerco dos bárbaros se fazia iminente e ali permaneceu febril até o último suspiro. 

Um dia, quando se narrar com justiça a história da fortuna crítica do Padre Cícero, creio que a esta irmã romeira, que deixou a cátedra de Lovaina para se embrenhar no Vale do Cariri, aos pés da Serra do Catolé, dever-se-á o maior mérito, num trabalho conjunto com sua irmã de hábito Therezinha Stella Guimarães, fundadoras que foram do Centro de Psicologia da Religião (CPR), em Juazeiro do Norte (CE).

Sua obra coloca um foco bem franciscano, tanto na ênfase da tradição do poverello d´Assisi, como na recuperação da mesma pelo Papa Francisco, o Papa da Misericórdia e de uma Igreja pobre e para os pobres. Creio que essa nova luz faz toda a diferença – e esta obra o apresenta muito bem – para compreender o papel do Padre Cícero no Joaseiro da Mãe das Dores e sua atualidade para uma Igreja pós-conciliar que parecia sem rumo e desanimada. Não é o momento de chamar à colação o que o antecessor de Francisco, ainda como o Cardeal panzer da Congregação para a Defesa da Fé, Joseph Ratzinger, realizou nessa direção, chamada então de reabilitação e que, mais apropriadamente, com Dom Fernando Panico e, agora, com a mensagem do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, vislumbra-se em termos de reconciliação. O foco pastoral, na esteira da nova evangelização proposta pela V Assembleia do CELAM, em Aparecida (SP- 2007) e, sobretudo, pela Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, não é de modo algum atitude de avestruz que não quer ver, ouvir ou reagir diante de momentosas “questões históricas, canônicas ou éticas do passado”. Contudo, uma Igreja em saída ao encontro das periferias existenciais tem sensibilidade mais aguçada para ouvir o clamor do Povo de Deus, para as necessidades de um rebanho sem pastor, sem se deixar enlinhar nas malhas do poder, cioso de privilégios e autoridade mundana, bem distante do seguimento do Mestre que exclamou: “não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

Peter Brown (op.cit.p.545) admira-se de que Possídio, ao concluir sua Biografia de Agostinho, cite esses versos colhidos do túmulo de um poeta pagão desconhecido: “Viajante, não sabes que o poeta pode viver além da sepultura?/ Aí estás e lês este verso: sou eu quem falo, portanto. / Ao leres em voz alta esta obra, tua voz viva é a minha”. 

No meu pobre entender, a irmã romeira de Lovaina, despindo-se de seu aparato acadêmico, expressou-se com a mesma sensibilidade poética dos bardos do cordel e da simplicidade dos devotos peregrinos dessa nova Jerusalém para dar vida à voz do Padre Cícero. Essa é a minha impressão mais viva e, quiçás, duradoura na retomada de um acervo imenso que precisa ser posto sob essa nova luz franciscana. E só uma pessoa, que há mais de 40 anos optou pelo serviço evangélico a esses mesmos pobres nordestinos, poderia ter a ousadia [o grego do NT dirá melhor com o termo parrêsía – coragem para falar com liberdade- cf. Mc 8,32] de recuperar as pérolas de uma história de vida muitas vezes lançadas na lama e emporcalhadas de modo irresponsável.

Olhando dessa maneira o seu belo trabalho, não deixo, porém, de me espantar com certas limitações que, salvo melhor juízo, poderiam ser eliminadas em futuras edições. Não pretendo ser exaustivo, ainda mais porque outros leitores mais competentes serão capazes de, fraternalmente, contribuir para o exame crítico de seu texto, por sinal muito claro e bem escrito. Refiro-me a certos direcionamentos que não caberiam numa narração sem a pretensão de interpretação e revisão histórica tout court, quando o texto chama a atenção para personagem oculto (pp.168-169), numa trama ou num jogo de poder, deixando no ar uma suspeita sem dar nome aos bois. A irmã romeira, capaz de se indignar com o vaivém das novelas interpretativas da vida do Padim, não deveria resvalar para o terreno da suspeição e das possíveis conjecturas, uma vez que ela, como o jornalista Lira Neto, tem em mãos o material colhido nos arquivos do Vaticano pelo Mons. Francisco de Assis Pereira, sob o título Padre Cícero no Santo Ofício (Natal 2004 – cópia xerox, também em minha biblioteca). O jornalista, como se fora autêntico pesquisador nas fontes romanas, não dá crédito ao autor do relatório e se utiliza abundantemente de um material de autoria (sic) anônima. A irmã romeira, felizmente, traz à luz citações do documento [ver notas n.4,p.114; n.10,p.131; n.1,p.155s; n.3, p.162; n.4,p.163; nn.5 e 6, p. 165; n.1, p.197] e, no capítulo Padre Cícero e a nova Diocese do Crato, faz – de alguma maneira – um paralelo antagônico entre a atuação positiva de reaproximação com o Padre Cícero do 1º. Bispo do Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, e as sobreposições (by pass) negativas de Dom Manoel da Silva Gomes, sucessor de Dom Joaquim, que chegam ao cúmulo da excomunhão do Padre Cícero, sem consulta prévia a seu bispo diocesano. Esse imbroglio narrado à sua maneira por Floro Bartolomeu, em longo discurso na Câmara dos Deputados (RJ: 23-9-1923), mereceria, à luz das pesquisas do Mons.Pereira, uma revisão histórica que pusesse em destaque justamente o papel humano e cristão de Dom Quintino para com o Padre Cícero, seu amigo de longa data, e se eliminasse de uma vez a péssima impressão de muitos juazeirenses – filhos da terra ou ádvenas – que ainda têm no antístite Quintino o algoz do Padim. Assim, o papel da hierarquia junto dos negócios do Joaseiro não deveria permanecer na sombra ou nas trevas e, historicamente, não mais receber exclamações patéticas como as do Monsenhor Macedo, numa carta ao Padre Cícero sobre o seu encontro com o Núncio: “Mistério! Mistério! Mistério! Quem seria o culpado?” (op.cit.p.168) ou mencionar-se um terceiro que anda nas trevas a urdir intrigas e incompreensões (v.p.169 id). Sem dar nome aos bois, sem o aprofundamento do papel dos hierarcas coadjuvantes, como o Cardeal Arcoverde ou Dom Manoel, 3º. Bispo do Ceará, e não a partir de conjecturas ou suspeitas, mas à luz das provas, hoje abundantes, como as que nos chegaram às mãos graças à diligência (akribía) de um Mons. Pereira, a revisão histórica perde substância, torna-se capenga e não faz jus a tudo que foi acumulado nesses anos pelos pesquisadores, sendo uma das mais acuradas a irmã romeira.

Num encontro que mantive com Dom Fernando Panico em sua residência, logo que ele voltou de Roma, perguntei-lhe por que o relatório do Mons. Pereira ainda não tinha sido publicado, dada a relevância de suas irformações. Ele me passou essa confidência: “quando entregamos os 11 volumes com a petição dos bispos ao Secretário da Congregação, ele apontou para o texto do Mons.Pereira e falou expressamente: não deve ser divulgado”. E, então, insisti na pergunta: por que tanto sigilo? E Dom Fernando desconversou educadamente. Estava profundamente intrigado com a atitude de Lira Neto, em Padre Cícero: poder, fé e guerra no Sertão (Companhia das Letras, 2009), que se utilizara do relatório all´insaputa do autor, que – num encontro que mantivemos em fevereiro de 2010, em Natal – dizia-me ignorar como o seu texto vazara para o jornalista, sem que o mesmo lhe desse o mais ínfimo crédito. E, assim, os mistérios do Joaseiro não se restringiriam apenas à questão religiosa do milagre da hóstira, mas à imensa rede de intrigas, nas quais estavam implicados hierarcas de alta posição. Nesse sentido, entendo que o papel extraordinário de Dom Fernando Panico, desde os primeiros passos de seu ministério pastoral na diocese do Crato, não perderia o brilho inapagável que lhe pertende por direito, se também se revisse em detalhes as iniciativas pioneiras de Dom Quintino, sabotado - esse é o termo apropriado – por Dom Manoel da Silva Gomes, 3º. Bispo do Ceará. 

Gostaria de voltar ao depoimento do Cardeal João Braz de Aviz, na abadia beneditina, Nossa Senhora da Vitória, em Juazeiro do Norte: “Posso dizer a verdade?... O problema não está mais em Roma, mas na diocese do Crato, onde alguns padres não aceitam o pedido do diocesano”. E a irmã romeira acrescenta com sinceridade: “Prefiro não expressar aqui a reação que tive ante essa revelação! Mas essa resposta ficou martelando em minha cabeça: o problema não está mais em Roma...” (op.p.233).

Irmãzinha, a verdade expressa pelo Cardeal talvez deva ser aprofundada. Por que não averiguar a participação de Dom Newton Holanda Gurgel, antecessor de Dom Fernando, nessa não aceitação do pedido do diocesano? Consta que ele teria disbribuído entre o clero [a partir de cópia da Biblioteca do Palácio Eipiscopal do Crato, n. do Tombo 01] o opúculo Joazeiro do Cariry, do Padre Alencar Peixoto (1913), cuja virulência detrata de modo deprimente o Padre Cícero. Então, seria necessário, em nome da verdade, buscar, em nível mais elevado, a causação dessa atmosfera negativa na diocese, em vez de apenas atribuí-la de modo genérico e vago a um grupeto de alguns padres, transformados em bodes expiatórios. Se isso for verdade, a história se repete não como tragédia, mas como farsa e burla, vindo-nos à mente o mesmo que aconteceu entre Dom Manoel e Dom Quintino, nas primeiras tentativas de reconciliação do Padre Cícero com a Igreja.

Nesse ponto, creio eu, Dom Fernando Panico falhou redondamete ao não se cercar de pessoas, como o próprio Padre Murilo, o vigário romeiro, que o podia ter ajudado nesse trablho ingente de convencimento do clero. Essa teria sido uma meta-síntese – na linguagem de Juscelino ao construir Brasília – das metas pastorais de Dom Fernando no esforço de uma evangelização que engajasse todas as paróquias e comunidades de base da diocese. E isso expressei-lhe publicamente e ao clero reunido em Assembleia no Centro de Expansão. Mas, o dito ficou pela não dito, sobretudo em se tratando de alguém sem mais credibilidade para falar de modo aberto e sem temor – com parrêsía – como falei.

Longe de mim diminuir o mérito de seu belo trabalho, irmã romeira, mas me parece que o subtítulo revisões históricas foge de seu propósito luminoso de focar de modo apropriado o tema franciscano da reconciliação. A irmã romeira, com o enorme acervo de que dispõe hoje, ou entre para valer – de cabeça, diria – nessa seara tenebrosa, com parrêsía, ou não mencione hipóteses que não possam ser esclarecidas cabalmente, dando nome aos bois. Não vou sugerir alternativas para um trabalho de revisão e complementação de seu texto, mas esses comentários – um tanto apressados – nada mais são do que a voz de um amigo que a estima muito e lhe agradece por tanto bem que vem realizando no Joaseiro da Mãe das Dores. A título de post-scriptum faço notar que talvez a péssima avaliação (p.81) em relação ao Padre Ibiapina tenha sido mais de Dom Luiz Antônio dos Santos, que o perseguiu e o expulsou do Ceará. Quando Dom Joaquim chegava em 1883, Padre Ibiapina havia sete anos se afastara doente em seu retiro de Santa Fé (PB) e ali morria em fevereiro desse mesmo ano de 1883. Também não foi Leão XIII quem não atendeu, em 1922, o pedido de Dom Quintino para a reabilitação do Padre Cícero (cf.pp.200 e 229), mas Bento XV, sucessor de Pio X (1903-1914), por sua vez sucessor de Leão XIII (1878-1903). São pequenos detalhes que podem ser modificados numa próxima edição de sua obra.

Tenha o meu mais cordial apreço, na certeza de sincera amizade.

(Francisco Salatiel de Alencar Barbosa, ouvinte da Palavra e estudioso do Peregrinar humano. Brasília, em 20 de agosto de 2017: Festa da Assunção da Virgem Maria e 50º. Aniversário de minha primeira concelebração eucarística (Primícias Sacerdotais), na Matriz de Santo Antônio do Araripe (CE), sendo vigário Pe.José Alves de Oliveira.) 

PMJN APOIA INSTITUIÇÕES
A PMJN está apoiando nove instituições esportivas, da iniciativa privada, destinando recursos financeiros para os eventos que as mesmas desenvolvem, no valor total de R$273.940,00. Veja a relação publicada no Diário Oficial do Município: