terça-feira, 14 de abril de 2015

BOA TARDE (I)
Dou continuidade à publicação nesta página das pequenas crônicas que estão sendo lidas no Jornal da Tarde (FM Rádio Padre Cícero, 104,9 de Juazeiro do Norte) nos dias de segundas, quartas e sextas feiras, sob o título Boa Tarde para Você.
143: (13.04.2015) Boa Tarde para Você, Joaquim Felipe da Silva
Nosso personagem de hoje, um desses nordestinos fortes que nasceu em 12 de abril de 1935, a quem cumprimento com este simplório Boa Tarde, é um dos 11 filhos dos sertanejos paraibanos José Felipe da Silva e Joaquina Teodorina da Conceição, gente que nasceu e viveu no antigo Belém do Rio do Peixe, hoje município de Uiraúna. Joaquim Felipe da Silva, bem como seus outros 10 irmãos (Benu, João, Duca, Maria, Nega, Antônio, Manoel, Leandro, Vicente e Quininha) foram meninos e adolescentes que viveram em meio a uma ambiência rural, no Sítio Fazenda Nova, de agricultura familiar onde se criava gado, e se plantava e colhia, entre arroz, feijão, milho e o que mais a terra desse. Dessa gente, pessoas valorosas, mas de grande anonimato, sobressaíram com o orgulho familiar os irmãos Antônio que ocupara cargo de representação diplomática do corpo consular brasileiro em Berna, na Suíça, Manoel que foi vereador e presidente da câmara municipal, João Felipe que dirigiu o BIC em Juazeiro, e Maria que se entregou de corpo e alma ao serviço de Deus, dentre as Filhas de Jesus Crucificado. Na maior parte, pouco depois da morte de José Felipe, mãe e filhos vieram para Juazeiro e aqui se estabeleceram em 1957, com residência na Rua São Francisco, deixando que outros filhos ainda cuidassem do Fazenda Nova para o sustento da família.
Nesta época, Joaquim já tinha seus 14 anos, e como seus irmãos, fez os seus estudos até o velho ginásio em escola pública da cidade, para depois alguns se destinarem a negócios de vendedores ambulantes, enquanto Joaquim foi trabalhar na Durabel, a primeira fábrica de calçados plásticos de Juazeiro do Norte, de propriedade de Francisco José de Melo. Seu Chiquinho da Durabel, esse pioneiro que foi o primeiro a fabricar calçados plásticos, no estilo das famosas sandálias japonesas, tinha esta empresa na antiga Rua São João, e foi o mesmo que plantou a semente deste hoje polo calçadista, para anos depois transferir a empresa e seu acervo para o empresário Severino Gonçalves Duarte. Ainda muito cedo, Joaquim descobriu que além de grandes predicados de cidadania, seu Chiquinho tinha algo mais valioso para os seus interesses de um jovem de vinte e poucos anos, e se tratava de uma moça bonita e formosa, a Francisquinha, por quem se afeiçoara como destas coisas de amor à primeira vista. Foi um namoro de pouco mais de três anos, onde figuraram desde a benfazeja alcovitagem do irmão João Felipe, naquele leva e trás de recados e gracejos, os passeios na Praça, os instantes deliciosos na Sorveteria Rex, e os momentos da intimidade do casal, onde se jurava amor eterno. Num desses dias, Francisquinha entregou a Joaquim uma pequena imagem fotográfica, da formosura que era sua pessoa, escrevendo no verso com letra tão bonita: “Joaquim, se é que me queres, aqui me tens tua, eternamente”, e datou de 9 de janeiro de 1960. Pe. Murilo de Sá Barreto, aos pés de Nossa Mãe das Dores, selou este compromisso em 24 de dezembro de 1962, indo ele mesmo dirigindo sua rural, depois do casamento, entregar o casal de volta à casa dos pais da noiva, onde da porta mesmo foi gritando: “Chiquinho receba aqui estes dois irresponsáveis e depois me diga as consequências”. E as consequências foram aparecendo porque Joaquim e Francisquinha geraram Haydée, que é bióloga, técnica em radiologia e empresária; Solange, que é contadora e empresária do ramo de joalheria; Cícera Danielle, que é administradora de negócios de empreendimentos imobiliários; e Paulo Roberto, que é representante comercial na área de calçados, rapaziada bonita que se esmerou para legar a Joaquim e Francisquinha, entre o duro trabalho dos dias e o grande amor das noites, nove netos e um bisneto. Em 1961, Joaquim  e Francisquinha resolveram montar um Bar, como tantos que a cidade já tinha, mas que de um jeito particular ficou conhecido como O Pinga Certo, num batismo popular por seus fregueses que iam lá com tal religiosidade, mercê de algumas “especialidades”, como boteco que não tinha bagunça e nunca se quebrou um copo, e o trato dos donos da casa com bom atendimento. Mas, não era só isto o que reservava O Pinga Certo, podendo se falar das coisas bem cuidadas da cozinha, onde se destacavam rolinha assada, ova de curimatã, preá, aves diversas, a água de coco vinda da Paraíba, e o peixe na gordura de porco, num ambiente de tão boa frequência com clientes tradicionais como Darim e Zé Tavares, de grande cantoria, e de repente, se ouvir um inusitado recital de Patativa do Assaré. Como bom maçom que ingressara na Loja Cavaleiros Espartanos, em 1978, Joaquim reunia grande número de irmãos e muitos amigos nas noites de quintas feiras, e por isto mesmo o Pinga Certo foi uma casa que por muitos anos se fazia respeitar e onde ninguém se metia a besta para lhe tirar a tranquilidade de tantos frequentadores. O Pinga Certo existiu na Delmiro Gouveia com Alencar Peixoto até 1985 quando dona Francisquinha e a filha Haydée o encerraram, porque uns dois anos antes Joaquim, de comum acordo com a família, foi se aventurar no garimpo de Serra Pelada e aí ficou até 1994, numa história de grandes lances que talvez um dia a gente conte aqui. Em 1994, Joaquim e Francisquinha que ainda encararam juntos negócios ambulantes de confecções e joias pelo Maranhão, decidiram retornar ao convívio mais íntimo da família e reclamaram a merecida aposentadoria, vivendo as alegrias de suas vidas, saudáveis e amorosos, aos quase 53 anos de vida conjugal, como se estivessem nos dizendo que com isto descobriram como se faz a felicidade de um mundo inteiro. 
Parabéns a vocês, Joaquim, Francisquinha, e toda a família, mas parabéns especialmente a você Joaquim, que acaba de chegar a esta marca invejável dos seus 80 anos.
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 13.03.2015)

MOSTRA A DITADURA REVISITADA
O Cinematógrapho (SESC, Juazeiro do Norte), com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, continua com a Mostra A Ditadura Militar Brasileira Revisitada, nesta quarta feira, 15 de abril, com a exibição do filme Diário de uma busca (Brasil, 2010), Direção de Flávia Castro, com duração de ;105 minutos. A mostra estará acontecendo sempre às 4as feiras, às 19 horas, no SESC Juazeiro do Norte-CE, com entrada gratuita. 
Sinopse: Outubro, 1984. Celso Castro, jornalista com uma longa história de militância de esquerda, é encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazista, onde entrou a força. A polícia sustenta que se trata de um suicídio. O episódio, digno de um filme de suspense, é o ponto de partida de Flavia, filha de Celso e diretora do filme que decide reconstruir a história da vida e da morte do homem singular que foi o seu pai. É uma viagem no tempo e na geografia: a diretora volta a Porto Alegre, Santiago, Buenos Aires, Caracas e Paris, cenários do exílio familiar, da ilusão e do fracasso de um projeto político. O resultado é um documentário poderoso e comovente que combina magistralmente a intriga policial, os testemunhos de familiares e companheiros e o relato na primeira pessoa de uma infância vivida entre o exílio e a luta armada.  As vozes imbricadas de Celso (de suas cartas) e de sua filha constroem um retrato íntimo de uma relação marcada pela história e pela ausência. Crítica: Se no poema de Drummond a pedra que estava no meio do caminho a quebrar a rotina era um colírio, para Diário de Uma Busca esse elemento de surpresa é um alívio e atende por um nome: infância. Não fossem os questionamentos infantis de quem não entende a seriedade adulta, teríamos apenas um documentário importante, com função social, a acompanhar a geração de exilados políticos da Ditadura Militar no Brasil (1964-85). Por existirem as crianças, temos um bom e terno filme. Sério, mas terno. “O que seus pais fazem da vida?”, pergunta uma colega de colégio à jovem Flávia. “Ah, eles fazem reunião”, responde a menina, sem nenhum pingo de ironia na afirmação. Para o espectador, uma resposta engraçada: seus pais fazem reunião? Quebra-se a sisudez com a perspectiva de uma criança que cresceu assistindo ao pais militantes escapando de golpes militares na América do Sul, morando em embaixadas, fugindo de batidas policiais de regimes ditatoriais. Pais, mães, casais e famílias de classe média que, quando o pau quebrou após a cessão de todas as liberdades no Ato Institucional nº5, passaram uma década fora do Brasil. Assistiram de longe ao tricampeonato da Seleção Brasileira, ao Milagre Econômico, ao desbunde de Caetano Veloso, à tortura e aos dribles de Zico. Mas é preciso conter a tentação de generalizar. Diário de Uma Busca, Melhor Documentário do Festival do Rio em 2010, não quer falar do mundo, mas de um pai: Celso Afonso Gay de Castro, pai da diretora Flavia Castro, que narra seu filme como um diário pessoal. Este documentário tem a interessante capacidade de centrar atenções em uma família e, com isso, jogar luzes em muitas outras que sequer conhecemos. Fala-se da História com uma pequena história. O enredo de Celso é uma saga cujo roteiro começa parecido com o de militantes que se opuseram à ditadura e termina com um estranhíssimo mistério: aos 41 anos, morreu ao invadir, com um amigo, o apartamento de um alemão que integrara o alto escalão nazista. A polícia alega suicídio. Um legista contesta a hipótese. Uma trajetória que sai de um nobre lugar-comum (militante reprimido pela ditadura) e se encerra com um acontecimento nem um pouco digno de nota. Existem pelo menos quatro filmes dentro de Diário de Uma Busca, restando apenas a escolha por acessar o que mais parecer interessante. O mais óbvio é a busca de uma filha que tenta entender as decisões de seu pai, o real motivo de sua morte e recuperar o que houve de belo na turbulência da infância. Cartas trocadas pela família são um poderoso e terno instrumento narrativo. Um espectador mais militante pode optar por observar a vida de Celso como a de milhares de exilados, procurando diferenças e semelhanças, por exemplo, entre ele e Vladimir Palmeira, ex-presidente da UNE. Outra leitura plausível é o esforço de um filme em resumir a trajetória de um homem. A última porta de leitura, e que considero mais interessante, é o filme que não houve e não haverá. Diário de Uma Busca, também laureado com o Prêmio da Crítica em Gramado, não só é dirigido por Flávia Castro, mas narrado e conduzido pelo olhar da irmã mais velha. Porém, existe o mais novo, Joca, que participa pelas beiradas. Enquanto Flávia, no começo do exílio no Chile já tinha 6 anos, Joca era um bebê. Enquanto a menina cresceu já compreendendo um pouco do que se passava, Joca nunca teve explicações. “Ele era muito pequeno, ninguém precisava explicar nada”, diz uma tia. Por que o pai foi preso quando, no Chile, Salvador Allende sofreu um golpe militar? Por que estavam na embaixada argentina aos montes sem poder ir para casa? Por que não frequentavam a escola? Indiretamente, o documentário não é apenas a busca de uma filha pelo pai, mas também da confusão de um filho injuriado pelas decisões desse mesmo pai. Um dos grandes documentários de um tema político desde Cidadão Boilesen. Com várias portas: escolha a sua e entre. (Por Heitor Augusto, http://www.cineclick.com.br/criticas/diario-de-uma-busca 

HOMENAGEM A CRATO
SAUDANDO ROSÁRIO LUSTOSA E O CRATO
Excelentíssimas autoridades,
Meus Senhores e minhas Senhoras.
Ao saudá-los nesta ocasião, permitam-me que enumere vários motivos me enchem de alegria, e diria, até de certo orgulho pessoal, ao participar nesta noite do lançamento deste mais novo livro de Maria do Rosário Lustosa da Cruz, a quem tenho o privilégio de suceder à frente do Instituto Cultural do Vale Caririense.
O primeiro deles me remete à consideração de que, a despeito de tantas solicitações que nos enchem o dia-a-dia, ainda é a literatura, e especialmente a poesia, uma das atividades humanísticas que mais nos congregam e nos animam para a superação das imensas dificuldades com as quais lidamos à procura de nossa felicidade. E isto é uma coisa para se pensar.
Outra coisa importante é que isto acontece, privilegiadamente, em meio a este congraçamento em que nossas cidades se sensibilizam para celebrar a sua convivência, outrora tão desarmônica, para reafirmar a sua maturidade em dias presentes e o faz particularmente na seara das letras e das artes, muito mais que em qualquer outro campo de atividades. E isto é uma coisa para se pensar.
É importante também mencionar e agradecer que isto se faça com o pano de fundo deste consagrado programa Ceará Diverso, mediado por este extraordinário agitador cultural, Vandinho Pereira e sua equipe, que reúne em torno de si e de sua proposta o que de melhor a cultura nordestina tem a oferecer aos nossos gostos cada vez mais refinados e exigentes.
Merece uma menção particular que esta noite reserve, não apenas uma constatação, mas um festejo com o qual essa cultura regional e universal, para lembrar o mote de Antônio Martins Filho, se refestela ao convívio de grandes mestres que aqui estão, cada um em particular às suas competências, todos em geral pelas manifestações que elegeram a literatura de cordel como estética, como linguagem regional e que universaliza o nosso sentimento, nesta noite. E isto é uma coisa para se pensar.
Mais ainda, estamos aqui diante da necessária comemoração, para a qual nos reunimos com afeto e admiração por esta gente cratense e que deve se estender até mais não se poder, com esta passagem comemorativa dos 250 anos da Vila Real do Crato, matriz desta constelação de comunidades, mercê de todos os predicados que se afirmaram no tempo e dos quais somos todos herdeiros, entre amados, amantes e desafetos. Salve o Crato, matriz desta identidade cultural e da força que esta região construiu em tantos anos do seu desenvolvimento social e econômico. E isto é uma coisa para se pensar.
A mim, particularmente, meus senhores, como dirigente de uma destas instituições da nossa cena cultural que tanto tem se empenhado para manter viva estas preocupações que alargam a nossa vivência regional, recai substantiva responsabilidade no sentido de honrar o esforço daqueles que nos precederam.
E me permitam que não deixe de proclamar aqui os imensos benefícios que herdamos de verdadeiras legendas que povoaram este Vale, e de muitos, não posso deixar de citar quatro deles, pessoas que conheci, mesmo que superficialmente, sem nenhum menosprezo ou indiferença a tantos outros, nas pessoas de J. de Figueiredo Filho, de Joaryvar Macedo, de Antônio Marchet Callou e do mestre Eloi Teles de Morais. 
Poderia ir mais adiante trazendo para esta oportunidade a consideração importante de que o momento que vive esta nossa região enseja motivos, preocupações e atitudes com as quais se faz necessário refletir um pouco mais sobre o que desejamos viver como agentes desta cultura, tão comprometida com os valores deste homem Cariri. E isto também é uma coisa para se pensar.
O livro que ora se lança, mais que uma homenagem que se impõe, é um grande painel que nos ajuda a revisitar heroicas páginas da construção desta civilização ao sabor de uma narrativa por versos de cordel, como linguagem de eleição, para espelhar de forma inequívoca como este povo escreveu sua própria história, como conviveu com seus sofrimentos, angústias e conflitos sociais, ao mesmo tempo que enriqueceu seu imaginário com sonhos e desejos.
Felizmente, ao tempo em que tantas associações e academias, como esta, a dos Cordelistas do Crato, venceram o anátema do “isto vai se acabar”, a literatura de cordel ressurgiu com grande força para que seus folhetos, sua produção, represente ainda a chama acesa dessa cultura que toma para si os ideais de preservar, valorizar e difundir o conhecimento que se produz, a caminho de uma universalização como patrimônio imaterial da humanidade.
Por isso mesmo, é de grande importância o papel que vem sendo desenvolvido por estas instituições, produtoras de valores culturais, e também por outras tantas, grandes entusiastas, financiadores e fomentadores que se juntam a este esforço continuado dos poetas, produtores e intelectuais, arrimados neste autêntico mecenato que em nossa região responde pelo trabalho benemérito do SESC e do BNB
E não seria demais pedir-lhes que possam ainda mais fomentar novos grupos de estudos, atenção para com novas gerações de poetas, a abertura de novos espaços para a comercialização de literatura popular e xilogravura, além de oficinas de iniciação ao cordel, e ao surgimento de tipografias e editoras.
Nesta oportunidade é conveniente lembrar, a propósito deste momento que vivenciamos nesta noite, com esta obra de Rosário Lustosa, a necessidade de estender o conhecimento desta produção à Escola para que as novas gerações reconheçam o valor da literatura de cordel como linguagem e instrumento valioso para o seu próprio desenvolvimento. Acredite quem quiser.
Como você pode perceber, minha caríssima Rosário Lustosa, seu trabalho, não obstante o grande valor intrínseco ao propósito de realizar esta homenagem, é também o mote indispensável para que não percamos a oportunidade para repensar caminhos e estratégias que nos animam pela permanência do cordel.
Relevo a felicidade com que Dane de Jade se refere a este livro, logo na introdução, para qualifica-lo como “uma tapeçaria poética da História do Crato”, exatamente porque sua autora esmerou-se em percorrer um itinerário que se exubera entre ricos personagens, fausto acontecimentos, e emblemáticas datas, para se sobressair como uma peça que enriquece a narrativa heroica de seu povo.
Gostaria também de registrar, com agradecimento, exatamente porque somos beneficiados com a iniciativa, a maneira com a qual a secretária de cultura, literalmente, danou-se ao conceber este Projeto Manuscritos Crato, que abriga esta primeira produção, abrindo espaço para um trabalho de grande mérito pela permanência de uma ação cultural exemplar, digna e honrada no propósito de preservar memória e difundir valores.   
O “Só no Crato”, conforme nos lembra Armando Lopes Rafael, em sua apreciação, não é o que abriga o pernóstico, o desabusado, senão tudo aquilo que há para referir com grande orgulho o que de fato aqui encontramos e só aqui encontramos. 
Esta especificidade histórico-cultural realçada nos versos de Rosário Lustosa é o maior sentido desta riqueza antropológica que permeia a luta de muitas gerações em respeito à construção desta civilização e em respeito a esta diversidade cultural que permite o diálogo e a convivência entre a tradição e a modernidade.
E não mais lhe digo, Rosário, porque nada mais me foi perguntado. Mas se o fosse, ainda diria da minha imensa alegria de ter lido seu trabalho, com grande encantamento, e de ter encontrado ali tanta coisa interessante, fatos idos e vividos, fatos que antecederam a nossa própria história de povo romeiro.
Muito obrigado e meus parabéns por esta homenagem à qual viemos aqui para nos associar prazerosamente.
(Discurso pronunciado em 10 de abril de 2015, por ocasião do lançamento do livro Crato na Literatura de Cordel: 250 anos de sua Vila Real, de Maria do Rosário Lustosa da Cruz, no auditório da Rádio Educadora do Cariri, em Crato)


sábado, 11 de abril de 2015

BOA TARDE (I)
Dou continuidade à publicação nesta página das pequenas crônicas que estão sendo lidas no Jornal da Tarde (FM Rádio Padre Cícero, 104,9 de Juazeiro do Norte) nos dias de segundas, quartas e sextas feiras, sob o título Boa Tarde para Você.
141: (08.04.2015) Boa Tarde para Você, Antonia Alves dos Santos 
Já mencionei nestas crônicas a minha imensa admiração pelos serviços que a invenção do rádio provocou na civilização, e de modo particular o que encantou aquele menino solto feito moleque, enturmado em bandos pela Rua São José. Foi desta época, no começo dos anos 50, que eu fui conhecer a nossa primeira emissora de rádio, funcionando ainda aqui pelo Socorro, quase na antiga Praça São Vicente, num prédio de Afonso Dias, e com o nome de Rádio Anhanguera. Durou pouco, pois o nome não agradou e logo mudou para Rádio Iracema, filiando-se à então rede iracemista dos irmãos Parente, como nós conheceríamos a pioneira da radiodifusão, mudando também para o edifício do antigo Clube dos Doze, na Rua da Conceição. Três irmãos, pelo menos, pontificaram nesta emissora: Vicente Alves dos Santos (o mestre Coelho Alves, de várias gerações, entre o jornalismo e o rádio), Geraldo Alves e Antonia Alves dos Santos, a quem cumprimento nesta tarde, para reverenciar com muito carinho. Faço pequena memória de sua vida e trabalho, reconhecendo seu talento e dedicação como uma parte desta história que muito nos engrandeceu, pois não é tarefa simples inventariar resumidamente o que foram estes primeiros momentos de nossa radiofonia. Antonia Alves dos Santos, a querida Toinha Alves, nasceu em Missão Velha, aos 22 de maio de 1936, filha de Antonio e Alcina Alves dos Santos, este casal que gerou também Vicente, José (Dedi), Raimundo, Geraldo e Valdeni, e outros quatro filhos que não se criaram. No início dos anos 50, aos catorze anos de idade, Toinha, sua mãe e irmãos vieram morar em Juazeiro, depois que deixaram Icó, fixaram-se temporariamente em Missão Velha, e para cá vieram após o falecimento prematuro do pai, “seu” Antonio Alves. Nesta época, Coelho Alves já residia em Juazeiro, fora balconista na Casa Celeste, militara na imprensa, no jornal O Pioneiro, fazia parte do primeiro time do velho Centro Regional de Publicidade, ao lado de Lourival Marques, e se tornou o grande protetor da familia, especialmente encaminhando para a radiofonia os seus irmãos Geraldo e Toinha, que sempre o considerou um pai. Toinha fez seus estudos básicos na velha Escola Normal Rural, para em seguida dedicar-se à sua formação em contabilidade, concluida em 1963 na Escola Técnica de Comércio, estabelecimento que lhe garantiu também parte de seu sucesso profissional, exercendo função técnica no conceituadíssimo escritório de Antonio Teodorico Teles, da Praça Pe. Cícero. Profissionalmente, Toinha teve grandes mestres na sua formação em Contabilidade, como Helvídio Landim, Eliseu Damasceno, Geraldo e Valter Barbosa, e por cerca de quinze anos dedicou-se com afinco a assistir empresas do comércio juazeirense, também com escritório próprio de escrituração contábil. Na Rádio Iracema, Toinha se iniciou como controlista na mesa de som, para depois ir figurar no quadro de locutores, conduzindo o programa musical Apontando o Sucesso e participando também da fase aurea do rádio-teatro, no cast da novela Romeu e Julieta, dentre outras. Este era o rádio juazeirense naquele início dos anos 50, com nomes extraordinários como Edésio Oliveira, Robson Xavier, José de Sousa Menezes, Coelho Alves, Wilani Magalhães, Almeri Sobreira, Maciel Silva, Pedro Barbosa, Alceli Sobreira, Escurinho, Geraldo Alves, Irene Monteiro, Zermar Bernardes, e tantos outros. Quando Coelho Alves deixou a Rádio Iracema, fundando a Transcariri, primeira FM da cidade, Toinha também se aposentou do Rádio, tendo antes lhe prestado grande contribuição na sua administração, em substituição a Dalva Mendonça. Lembranças como estas, ainda hoje enchem o coração de Toinha Alves, rememorando sua vida no teatro, na locução, na secretaria e na mesa de som que rodava os grandes sucessos dos famosos desta geração, como Dalva de Oliveira, Alcides Gerardi, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, Emilinha Borba e Luiz Gonzaga, gente que ela conhecera pessoalmente na emissora em dias de festas, como o 15 de novembro, a data maior da inesquecível ZYH 21, a Rádio Iracema de Juazeiro. 
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 08.04.2015)

BOA TARDE (II)
142: (10.04.2015) Boa Tarde para Você, Cila Braz
Ela nasceu em 21 de fevereiro de 1945, no Baixio dos Popôs e foi registrada no cartório local como Maria Ferreira Mendes, mas poderia ter sido a Maria Auxiliadora, porque em casa a família lhe chamaria de Dora ou Cila, como terminou sendo conhecida até hoje. Aos vinte e um anos de idade, casou com Vanderlei Braz, filho de um grande ourives desta cidade, de nome Nivardo Braz, teve quatro filhos (Webert Janssen, Pedro Neto, Wanderlane e Lidiane), e desta relação ficou a identidade definitiva de Cila Braz que acabou de completar setenta anos de vida dedicada à família, 56 dos quais à sua eterna música. Cila descende de bisavós que já se fixavam no Tabuleiro ainda no século XIX, sendo um deles, o Hipólito Mendes, o seu Popô, exatamente este que terminou por atribuir nome a um dos aprazíveis sítios deste Juazeiro, os Popôs, onde também nasceram seus pais Beatriz e Pedro Ferreira Mendes. Aos cinco anos, Cila veio para a cidade, menina de vida simples e muito doméstica, e aos nove anos, aluna do Grupo Escolar Padre Cícero, participava das sessões musicais das sextas feiras, organizadas por Tudinha de Zé Bernardo, Balbina Garcia, Deceles Bezerra e Nair Silva. E nisto, registrem-se dois fatos marcantes na vida de Cila Braz: sua voz que já chamava a atenção de quem a ouvia naquelas festinhas da escola, e a grande amizade com a musicista Nair Silva, pelas mãos de quem Cila foi se aperfeiçoando e se vinculando com uma estima que se tornou eterna. Nair Silva foi uma destas pessoas extraordinárias na vida de Cila Braz, como hoje ela destaca sua grande amiga Ione Rocha, almas irmãs que se tornam grande alento, estímulo e exemplo de vida. Na primeira formação do Coral do Instituto Cultural do Vale Caririense, que eu presidia em 1988, Cila Braz participou com grande entusiasmo, fato que se manteria em anos posteriores com o Coral Fênix, ressurgido das cinzas, reorganizado no Memorial Padre Cícero. Na noite do dia 23 de março de 1988, Nair Silva reuniu Cila Braz, Débora Callou, Carlos Macedo, Francisca Teles, Irenilce Xavier, Nininha, Ana Célia Casimiro, José Brito e Valba Gondim, para fazer uma seresta comemorativa, naquela véspera de aniversário do Padre Cícero. Foi esta a primeira vez que se realizou o que o tempo consagrou como a Seresta do Padre Cícero que anualmente acontece aos pés da estátua do Socorro, puxada pelo saudosismo dos grandes mestres como Augusto Calheiros, Orlando Silva, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, e tantos mais. Ainda no início de sua carreira, Cila Braz muito jovem foi apresentada ao grande violonista João Ferreira que se encantou com suas qualidades e muito a incentivou para que participasse de shows de calouros, em programas de rádio desta época, como o Domingo Alegre, com José Brasileiro e A Cidade se Diverte, com Alceli Sobreira. Brilhante e encantadora nestas apresentações, Cila Braz foi aos poucos se inserindo neste meio onde já se reconheciam vozes de grandes valores como Dunga, Socorro Alencar, José Brasileiro, Escurinho, Zé Tavares, Heleno Vieira, José Wellington Alencar e outros. O rádio destes anos 60 foi fundamental para o sucesso crescente de Cila, com sua presença num programa na Rádio Progresso, Uma Voz e um Violão, conduzido por seu marido, Vanderlei Braz, e que contava com as participações de Acilon (irmão do músico João Martins) e Horácio Fechine. Com a morte de Horácio, Cila e João Ferreira emplacaram um programa semanal na emissora, com o título sugestivo de Enquanto Houver Saudade, um grande sucesso de audiência no seu tempo, que se seguiria com outro, de nome Recordar é Viver, que durou 5 anos, para também não deixar de falar de apresentações nas TVs, festas e celebrações que não dispensavam a presença de Cila Braz. Só bem recentemente, por iniciativa conjunta com seu marido e empresário José Agostinho da Silva, o Zequinha, Cila Braz registrou em disco a sua marca inconfundível em memoráveis páginas do nosso cancioneiro, encontráveis nas gravações em CDs e DVD com os títulos: Cila Braz, a voz de ouro do Cariri (2002); Recordar é viver (DVD de 2002); Momento Marcante (2007); Um pouco de mim e canções que marcaram época (2009); Cantos Religiosos (2009); De volta ao passado (2012); e o mais recente, Cila Braz e J. Fernandes ao vivo (2015). Boa Tarde para Você, Cila Braz, notável e querida voz de ouro do Cariri, com o nosso carinho.       
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 10.04.2015)

PATRIMÔNIO
Cumprimentamos os senhores vereadores e o prefeito municipal pelo seguinte ato: LEI Nº 4451, DE 06 DE AGOSTO DE 2015, Declara Patrimônio Material, Cultural e Religioso do Povo Juazeirense, a Via Sacra do Caminho do Horto e adota outras providências. Art. 1º – Com fulcro no art. 23, inciso III da Constituição Federal e no art. 15, inciso III da Lei Orgânica Municipal de Juazeiro do Norte, fica declarado Patrimônio Material, Cultural e Religioso do Povo Juazeirense, as estações da VIA SACRA da Rua Caminho do Horto. Parágrafo único – O monumento a que se refere o caput deste artigo, fora construído em concreto armado e distribuído em quinze estações formato painel em alto relevo, recriando as  imagens da via crúcis (Via Sacra), trajeto seguido por Jesus Cristo carregando a cruz, do Pretório ao Calvário, encerrando com sua ressurreição e que se inicia na Avenida Leandro Bezerra, seguindo pela Rua Caminho do Horto até a colina próximo ao monumento do Padre Cícero Romão Batista. Art. 2º – Para fins do disposto nesta Lei, o Poder Executivo Municipal de Juazeiro do Norte, procederá aos registros necessários nos livros próprios do órgão competente. Art. 3º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Palácio Municipal José Geraldo da Cruz, em Juazeiro do Norte, Estado do Ceará, aos 06 (seis) de abril de dois mil e quinze (2015). DR. RAIMUNDO MACEDO, PREFEITO DE JUAZEIRO DO NORTE AUTORIA: Vereadora Maria de Fátima Ferreira Torres; COAUTORIA: Vereador Normando Sóracles Gonçalves Damascena.

NOVAS VIAS
A cidade continua crescendo e por isto mesmo novas ruas são abertas e nomeadas, como estas 3 últimas, pelos atos que foram aprovados e sancionados.
LEI Nº 4452, DE 06 DE ABRIL DE 2015, Fica denominada de RUA MARIA ASSUNÇÃO OLIVEIRA CRUZ, a primeira artéria paralela norte à rua Francisco Medeiros da Silva, localizada no Loteamento Green Parque, no bairro Campo Alegre, entre as quadras “A, B, C, D e E”, “G,H,I,J,K e L”, com início entre as quadras “A e L”, e término entre as quadras “F e G”, nesta cidade de Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. Autoria: Vereador Ronaldo Gomes de Lira; Coautoria: Vereadores Cícero Claudionor Lima Mota e Danty Bezerra Silva.
LEI Nº 4453, DE 06 DE ABRIL DE 2015, Fica denominada de RUA SIMÃO NOBRE DA CRUZ, a artéria localizada no Loteamento Green Parque, no bairro Campo Alegre, entre as quadras “A, B, C, D e E”, com início na rua projetada e término a quadra “A”, sentido leste/oeste nesta cidade de Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. Autoria: Vereador Ronaldo Gomes de Lira; Coautoria: Vereadores Cícero Claudionor Lima Mota e Danty Bezerra Silva.
LEI Nº 4454, DE 06 DE ABRIL DE 2015, Fica denominada de RUA VICENTE GAMA PEREIRA, a segunda rua paralela sul à Rodovia Major Gonçalo, início na Avenida Manoel Coelho Alencar e término entre as quadras09 e 11 do Loteamento Blandina Sobreira, sentido oeste/leste, no bairro Betolândia, nesta cidade. Autoria: Vereador Firmino Neto Calú.


MISSA DO PE. CÍCERO
A TVC, emissora estatal do Governo do Ceará, abrirá espaços, a partir do próximo dia 20, para transmissão da Missa do Padre Cícero Romão Batista, direto da Igreja do Socorro, em Juazeiro do Norte. Símbolo de religiosidade e fé dos nordestinos, Padre Cícero tem uma das missas mais prestigiadas no Interior do Ceará. A celebração, que começa às 6 horas da manhã, atrai a atenção de milhares de romeiros de diferentes estados brasileiros e,especialmente, do Nordeste. A transmissão da missa de Padre Cícero é uma das iniciativas do novo diretor-presidente da Fundação mantenedora da TVC, Tibico Brasil. A medida cria um elo maior entre a emissora e a população católica. A TVC, que, na Grande Fortaleza, pode ser sintonizada pelo Canal 5, tem também a sua imagem nos pacotes de TV paga e na internet. A emissora não irá se limitar à transmissão da missa do Padre Cícero e abrirá espaços para a missa de Fátima, celebrada a partir do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, na Avenida 13 de Maio em Fortaleza, e de eventos da área gospel. (Fonte: http://www.cearaagora.com.br/site/2015/04/tvc-transmitira-missa-do-padre-cicero/) 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

 BOA TARDE (I)
Dou continuidade à publicação nesta página das pequenas crônicas que estão sendo lidas no Jornal da Tarde (FM Rádio Padre Cícero, 104,9 de Juazeiro do Norte) nos dias de segundas, quartas e sextas feiras, sob o título Boa Tarde para Você.
139: (03.04.2015) Boa Tarde para Você, Ivan do Nascimento Freire Lopes
Devo dizer que ainda me causa surpresa a estima e o reconhecimento que tenho colhido pelas ruas, em manifestações diversas de afeto e carinho que muitos de nossos ouvintes têm confessado a mim e a pessoas de nossa equipe, com respeito à qualidade destes escritos semanais. Procuro ser o mais simples possível e até me desculpo se meu vocabulário tem algo de sofisticado, por vezes de pernóstico, se o palavreado empregado pode trazer alguma coisa estranha para um cronista do cotidiano que procura reunir memória, pessoas, homenagens e a atualidade de nossa vida. Não foi diferente com você, Ivan, como também não foi para outros que já o fizeram por escrito, trazendo para este tão modesto cronista a emoção dos seus sentimentos, com o conforto espiritual diante destas páginas que lhes tocam e que encarei como uma experiência notável em minha vida. Relevo particularmente o fato de ser você um professor, um colega de lida em sala de aula, graduado em Letras, com habilitação em Língua e Literatura pela nossa URCA e que tem procurado burilar esta vocação com especializações na matéria e na atividade docente no Ensino Superior. Muito me agrada saber que na docência, Ivan, você é daqueles que se desdobram no esmero profissional, distribuindo o brilho desta competência por instituições como escolas da rede pública, faculdades e universidade estadual, além da nossa Fundação Educativa Salesiana Padre Cícero, e também nesta emissora. Ao ler o seu currículo, coisa que faço curiosamente a cada novo colega que identifico, apresento-lhe os meus cumprimentos com atraso porque você obteve recentemente o seu mais novo título de Mestre, fato notável na carreira universitária que abraçamos. É oportuno dizer para todos nós que isto aconteceu ao final do ano passado, na Universidad de Santiago do Chile, a principal universidade pública daquele pais, quando sob a orientação do prof. Jaime Caiceo Escudero, você defendeu a sua dissertação na área de currículo e avaliação, exatamente duas das maiores preocupações da qualidade do ensino. Aliás, cabe aqui também uma menção explicita sobre este seu orientador, pois o prof. Jaime Caiceo é reconhecidamente um dos educadores de grande envergadura na América Latina, se dedicando particularmente à formação de novos quadros docentes e pessoa muito premiada em diversas instituições educacionais no Chile, Argentina, Colômbia, Espanha e Brasil. Poderia ir mais adiante relevando em você, Ivan, grandes méritos e o fazendo publicamente, por seu envolvimento em nosso Colégio Salesiano com projetos importantes como o “Aprofundamento de Leituras”, cuja ideia é estimular a leitura dos alunos salesianos e a produção de ensaios inspirados pelo tema “Nos dias de hoje, devemos reformar o Brasil?”. Sem dúvida, Ivan, isto é de fundamental importância, pois se trata da disseminação de uma cultura pelo gosto e prazer na leitura, além de conhecimento de periódicos que circulam no nosso país, e como você mesmo diz, “para criar relacionamentos e público leitor por fruição”, a ponto de prepara-los para a tarefa urgente de reformar este país. Costumo pensar, caro amigo, o quanto esta missão que nos cabe, esse autêntico “ministério educacional”, é algo de grande importância que deve ser visto na sociedade contemporânea, pois aí residem os instrumentos mais eficazes para esta transformação tão necessária. Cabe a você, a mim – aposentado que de tão impaciente voltei correndo à sala de aula, à Maria – professorinha dedicada nas mais recuadas e modestas escolinhas no interior deste país, aquilo que não sabemos explicar, mas que seguramente corre nas nossas veias, feito sangue velho de avós, para nos completar na nossa ansiedade de servir e ser instrumento desta nova redenção. Esta, felizmente, é a nossa crença, aquela certeza que nos move para realizar sempre e cada vez melhor, o que nos cabe fazer pelo futuro desta grande nação e por cada um dos seus filhos. 
Saúdo nesta tarde e cumprimento você, Ivan do Nascimento Freire Lopes, por seus predicados profissionais, mas também por conta deste serviço exemplar que sua história de vida nos mostra, aproveitando a oportunidade para apresentar-lhe os meus votos de uma Feliz Páscoa na paz de Cristo Ressuscitado. 
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 03.04.2015)

BOA TARDE (II)
140: (06.04.2015) Boa Tarde para Você, Francisca Giselle Cruz
No início de 2002, no Laboratório de Biotecnologia, do Centro de Ciências Agrárias da UFC, no Campus do Pici, em Fortaleza, eu recebi sua visita, Giselle, e nem a conhecia, para uma conversa que pouco demoraria, porque você foi direto ao assunto me dizendo: “eu vim para trabalhar com o senhor”, como se também me dissesse “e não me diga não”. Você há pouco concluíra o curso de graduação em Tecnologia de Alimentos no Instituto Centec, na FATEC Cariri, e já se propunha a realizar o seu Mestrado em Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal do Ceará. Eu lhe confesso que esta origem, o Centec, era e será ainda para mim, uma destas mais importantes recomendações que se pode atribuir a um técnico de nível superior em nosso Estado, porque eu conhecia de perto a sua origem, a sua concepção, nas ideias de vanguarda do meu velho e querido amigo e professor Francisco Ariosto Holanda, seu criador. Sejamos breves e diretos, Giselle, como você ainda se conserva, para dizer que por três anos, apostei muitas fichas, eu a orientei naquele mestrado, concluído brilhantemente em 2005, quando me despedia da UFC, na minha extemporânea aposentadoria, com a bem cuidada pesquisa sobre novas perspectivas para a tecnologia de bebidas e alimentos no Estado do Ceará. Como alguém que lhe deu régua e compasso, eu já era feliz em saber de poucas e boas notícias de suas andanças, ditas sempre ao telefone por uma mãe quase aflita, sofrendo e vibrando pelas vitórias seguidas da filha que corria por faculdades e centros universitários do Ceará, da Paraíba, de Alagoas e de Minas Gerais. Finalmente, em 2010, você regressou ao Cariri, fixando-se no Instituto Federal de Educação, campus Crato, como docente das áreas de Aquicultura, Legislação Ambiental e Análise de Alimentos, sendo ainda mais coordenadora de Extensão, pesquisadora do Programa de Apoio à Produtividade em Pesquisa, e Líder do Grupo de Pesquisa junto ao CNPq. Hoje, Giselle, relendo notas desta sua caminhada profissional, senti algo que expresso como de profundo orgulho pessoal porque vejo que figuro ao lado de parte destas suas conquistas, manifesto sincero de sua gratidão para com o velho professor, como aquilo que se diz e que se destina ao mestre, com carinho. Há poucos dias eu a encontrei em matéria televisiva para demonstrar isto que a versatilidade da tecnologia de alimentos, por conhecimentos que você aprendeu e dinamiza, e que produz conhecimentos novos sobre alternativas para nossa alimentação, ao sabor de recursos pouco explorados, como é o caso dos pescados de água doce. Se você me perguntasse o que eu acho de uma buchada de tilápia, Giselle, eu talvez a decepcionasse como alguém que se mantém muito conservador no seu paladar, mas não deixaria de louvar esta iniciativa pelo que ela trás de inovador, não apenas na culinária, senão como desenvolvimento a embutir métodos, técnicas, processos e produtos que isto permite. A genialidade de um técnico em alimentos se atesta em tais situações, pois em mundo tão carente de soluções, coisas como estas parecem nos assegurar que de fato, como dizem os especialistas, muitos alimentos que devem chegar à mesa em tantas partes do mundo, neste início de terceiro milênio ainda não foram desenvolvidos, mas podem não estar longe de chegar aos mercados. Quero crer que este seja o desafio marcante a ser vencido, Giselle, com este mais amplo domínio sobre tais recursos, muitos dos quais ainda presos aos limites desta agricultura familiar, longe da extensão da produção para as escalas competitivas dos negócios. Comungo consigo nesta iniciativa, profundamente marcada por esta identidade solidária para com as graves insatisfações que persistem, pois o sistema se conserva perverso e cruel, arrastando uma quantidade expressiva de miseráveis que não tem para comer o pão nosso de cada dia. No mais, Giselle, eu ainda consigo reunir vibração e entusiasmo para sentir que tive enormes privilégios de ter encontrado em minhas salas de aulas, gente valiosa e determinada, como você que assim se mantém, fiel a uma vocação que renova todas as nossas esperanças no futuro. 
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 06.04.2015)

MOSTRA A DITADURA REVISITADA
O Cinematógrapho (SESC, Juazeiro do Norte), com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro, dá sequência a Mostra A Ditadura Militar Brasileira Revisitada, com a exibição do filme Marighella, nesta quarta feira, dia 8. Documentário (Brasil, 2012), Dirigido por Isa Grinspum Ferraz, tendo no elenco Lázaro Ramos, como narrador. Sinopse: Carlos Marighella foi o maior inimigo da ditadura militar no Brasil. Este líder comunista e parlamentar foi preso e torturado, e tornou-se famoso por ter redigido o Manual do Guerrilheiro Urbano. Devido à ditadura militar, muito sobre os bastidores da época foi mantido em sigilo ou, no máximo, pouco divulgado. Natural, afinal de contas o país vivia um período onde a censura atuava com rigor, impedindo a publicação livre de notícias e opiniões. Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem recuperado um pouco desta história, seja devido à vivência dos diretores mais antigos ou pelo próprio interesse da nova geração. Não há, por enquanto, um único filme que aborde a ditadura militar como um todo, ao menos não com a abrangência do ainda impactante Pra Frente, Brasil (1981). Mas há vários filmes que revelam trechos da época, como se pouco a pouco o cinema brasileiro fosse montando um quebra-cabeças sobre o assunto. Marighella é uma destas peças. Crítica: Muitos confundem documentário com trabalho jornalístico e acham que documentarista não pode tomar partido e está obrigado a ouvir todas as partes. Sem for da intenção do diretor, sim, o filme documental pode ser uma das formas possíveis - dentre muitas - de se fazer reportagem, com a vantagem de explorar com maior liberdade as possibilidades técnicas e narrativas. Se o propósito do autor for outro, não se deve condenar a parcialidade, apenas cobrar verdade no que é retratado. É assim com Marighella, filme dirigido por sua sobrinha, Isa Ferraz. O longa humaniza a figura do militante mostrando detalhes da intimidade familiar e do círculo de amigos de luta deste ícone da ícone da esquerda brasileira, baleado e morto dentro de um Fusca em 1969, em São Paulo. Um olhar singular e interessante que só quem era de dentro da família seria capaz de documentar, com a vantagem de não mitificar ainda mais a figura de Marighella, levando às telas o ser humano por atrás do revolucionário ilustre dos quadros da Ação Libertadora Nacional. A diretora reúne entrevistas com militantes que combateram ao lado do guerrilheiro, de Clara Charf, sua viúva, de seu filho Carlos Augusto Marighella e de figuras notáveis na resistência à ditadura, como o professor Antonio Candido. O filme conta também com a narrativa em off de poemas e escritos de Marighella, interpretados pelo ator Lázaro Ramos. A ausência de registros filmados de Marighella - não existem imagens dele em movimento - é compensada por imagens da época retratada e fotografias familiares. O documentário revela ainda algumas pepitas garimpadas por Isa, como documentos secretos da CIA sobre Carlos Marighella e uma entrevista inédita dada por ele à Radio Havana, em 1967, e encontrada em perfeito estado de conservação. Marighella não é um documento jornalístico sobre a figura controversa do guerrilheiro que pegou em armas contra a ditadura. Isa não ouviu o outro lado. Seu filme não é imparcial, mas uma homenagem ao tio, o baiano poeta, misterioso aos olhos da menina Isa, que sempre desaparecia, por força da militância política, e, sem prévio aviso, retornava. Até o dia em que não mais voltou. Um trabalho pessoal e afetivo, mas que com suas imagens ajuda a reaver a memória política do país. (Por Roberto Guerra, http://www.cineclick.com.br/criticas/marighella-2011)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

BOA TARDE (I)
Dou continuidade à publicação nesta página das pequenas crônicas que estão sendo lidas no Jornal da Tarde (FM Rádio Padre Cícero, 104,9 de Juazeiro do Norte) nos dias de segundas, quartas e sextas feiras, sob o título Boa Tarde para Você.
137: (30.03.2015) Boa Tarde para Você, prof. Geraldo Alves Silva
Uma das primeiras notícias sobre a história desta nossa cidade já era a sua atenção para com a educação dos seus filhos, a partir da constituição de nossa primeira escola Régia, oriunda de uma decisão imperial, antecedendo a república proclamada. Contudo, algumas obras livrescas escritas entre os anos 20 e 50, estão carregadas de muito ranço, descarregado sobre o nosso Patriarca, como se ele não tivesse realizado algo substancioso para que o perfil daquele miserável lugar se alterasse a partir de melhores ações sobre a educação. Felizmente, prof. Geraldo Alves, a história sincera do nosso município é bem outra e de há muito foi possível resgatar a verdade dos fatos, creditando ao Padre Cícero, quando prefeito, uma conduta exemplar nos cuidados e zelos para que pudéssemos chegar aonde estamos. Uma destas grandes referências neste particular foi a criação da nossa primeira escola pública, o que se denominou de Grupo Escolar Padre Cícero, homenagem que foi prestada por iniciativa do então juiz da comarca, Dr. Juvêncio Joaquim de Santana, ao lembrar o nosso maior benemérito. Em 1924, data que o Grupo passou a existir, embora ocupando outros edifícios, ele foi dirigido por uma das maiores educadoras da história de nosso Estado, a professora Maria Gonçalves da Rocha Leal, a terceira das nossas professoras públicas, a quem coube reorganizar o estabelecimento, já com 5 professoras e a construir a sede que ainda hoje conservamos. Depois, em sua longa história, de mais de noventa anos, o Grupo Padre Cícero pode e deve ainda hoje lembrar grandes nomes como Leontina Sobreira, Elvira Medeiros, Amália Xavier, Generosa Alencar, Alacoque Bezerra, Heloísa Camilo, Deceles Bezerra, Cícera Germano, Delce Vileicar, Maria Maia, José Alves Francisco, Conceição Souza Dantas, e a atual diretora Maria Helena Macedo Sampaio. Desde 2003 esta hoje denominada Escola de Ensino Infantil e Fundamental Padre Cícero que outrora pertencia à rede estadual de ensino foi transferida para o município e quando foi reaberto em 2005 passou também a abrigar atividades destinadas a alunos com necessidades educacionais especiais, em atenção aos direitos cidadãos inclusivos. É também merecedor de elogios o funcionamento do Núcleo de Atendimento Pedagógico Especializado, para atender às necessidades dos Alunos Especiais, como também aos alunos que têm déficit de aprendizagem através de atenções de especialistas. Isso é parte da gratidão que queremos manifestar ao esforço desta terra em resgatar pela cidadania e pela educação os mais legítimos caminhos de construção de seu povo que não pode desconhecer este direito e a obrigação do poder público para retirarmos estas diferenças que tanto nos segregam. Lembro particularmente que em administração passada, a propósito que o Padre Cícero havia sido parcialmente esvaziado pela transferência de seu alunado para um novo estabelecimento construído na Av. Dr. Floro, tentou-se encerrar as suas atividades, pelo fato de estar sendo subutilizado. Ao saudá-lo, nesta tarde, prof. Geraldo Alves, exatamente porque recai sobre sua pessoa as responsabilidades mais marcantes de um gestor público, como dirigente da Secretaria Municipal de Educação, desejo tão somente chamar sua atenção para que o Padre Cícero continue a ser esta escola sobre a qual se mantém os grandes ideais da missão educacional entre nós. Essa tradição de velhas escolas é algo que precisa permanentemente instigar nossa criatividade reciclando programas e procedimentos para que não percamos nunca este contato imprescindível de prover nosso desenvolvimento ao arrimo de suas luzes. E há nesta preocupação algo que se identifica com sua própria trajetória profissional quando dirigiu estabelecimentos como o Colégio Agrícola de Lavras, e a velha Escola Normal Rural de Juazeiro do Norte, de cujos bancos saíram grandes homens públicos de nossa terra. Finalmente, prof. Geraldo Alves, queremos tributar-lhe a nossa confiança para que a educação de nosso município encontre em suas forças, na sua mente e na sua vocação de educador, o melhor para que estes equipamentos e a formação continuada de nossos quadros não deixem nunca de ser as atenções maiores de sua gestão e empenho.
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 30.03.2015)

BOA TARDE (II)
138: (01.04.2015) Boa Tarde para Você, Luiz Palmeira
Num dia como este, meu abençoado amigo Palmeira, não esqueço o quanto você gosta destas informações sobre a memória da história, para lembrar que a Igreja Católica celebra neste primeiro de abril o dia de São Hugo, homem de família nobre francesa, bispo de Grenoble que viveu 50 anos de um grande apostolado. Talvez seja oportuno também lembrar-lhe que neste dia foi proclamada a Lei abolindo a escravidão dos índios no Brasil e nasceram personalidades marcantes como o compositor Sergei Rachmaninoff; o escritor Roger Bastide, antropólogo francês que, inclusive, viveu no Brasil e escreveu sobre Juazeiro; e a atriz Debbie Reynolds, que vimos tantas vezes aqui no cine Eldorado. Mas, este dia se consagrou mesmo, Palmeira, porque “No Brasil, o primeiro de abril começou a ser difundido em Minas Gerais, onde circulou A Mentira, um periódico de vida efêmera, lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de D. Pedro, desmentida no dia seguinte.” Verdades e mentiras fazem parte da construção da notícia e um dia como este de hoje, quero crer, é muito apropriado para se fazer uma análise, mesmo que superficial ainda, sobre esta tendência que se abriga na imprensa e que não foge à constatação mais perversa dos psicólogos. Dizem eles que todo ser humano trapaceia, engana e mente, porque aparentemente convive bem com o hábito de elaborar mentirinhas, pequenas invencionices que se espalham, de forma determinada e bem resoluta, com alguma elaboração e não raras vezes, com critério de crueldade. Assim, Palmeira, a mentira é parte de uma estratégia de sobrevivência neste mundo conturbado, onde nossa atenção e cuidados nem sempre respondem bem a todos os compromissos e nisto seguimos dando pequenas desculpas, mentiras inventadas para nos desculpar pelo que não somos capazes de cumprir à risca. Neste universo, ser repórter de uma imprensa como você se propõe, Palmeira, a verdade tem um significado importante como critério básico de fidelidade à missão, embora aí não haja nada de novo ao se reafirmar este compromisso com o que intimamente se liga com o sincero, com o verdadeiro e, portanto, com a ausência da mentira. Fica claro, meu caro amigo, e você bem sabe, que a mentira no jornalismo deve ser, quando muito, o folclore, a informação que se deturpa desde a origem, no entorno da notícia, e que abre espaço para uma outra e expressiva missão do jornalista com a investigação que esclarece e desmascara. Tenho particular admiração por seu trabalho, Palmeira, porque você como profissional tem um perfil no qual se sobressai esta busca permanente pela verdade, com o desejo de comprovar a veracidade dos fatos e de fazer a distinção entre o verdadeiro do falso, primando pelo melhor serviço que se insere em um jornal como este, cuja colaboração é imprescindível. No dia de hoje, como em tantos dias mais recentes de nossa própria história, estar antenado com as noticias de todas as esferas, é uma tarefa ingrata e muito sofrida, pois isto realimenta a imensa frustração em saber o quanto esta pais ainda terá que percorrer para se livrar da mentira, da enganação, da mistificação desenfreada por valores inúteis à nossa cidadania. Por isso mesmo, Palmeira, o caminho da verdade no jornalismo é parte integrante desta cruzada diária para nos estimular na esperança e pela construção de um novo pais, à margem desta gente mentirosa que não honra cargos públicos, funções administrativas, e a cidadania de que são investidos. No caso particular do nosso Juazeiro do Norte e de todo o Cariri que queremos ver grande e muito maior que as nossas próprias ambições pessoais, a imprensa e este compromisso com a verdade se apresentam como parte deste ar que respiramos e que nos trás vida e vida em abundância. Nós, Luiz Palmeira, ouvintes de rádio, leitores de jornais, assistentes de televisão e usuários de mídia eletrônica, cobramos ainda mais de toda esta gente valiosa que há na imprensa deste pais, formando a opinião que promove a nossa nação para melhores conquistas, a voz contundente e esclarecedora para que tudo que seja dito, escrito e mostrado seja de fato o espelho de uma verdade irretocável.  
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 01.04.2015)

GRUPO ESCOLAR PADRE CÍCERO
A prefeitura municipal está divulgando a celebração dos 80 anos do Grupo Escolar Padre Cícero, com a seguinte nota; “A Escola Padre Cícero que foi inaugurada no início da Rua Santa Rosa pelo então prefeito José Geraldo da Cruz, em maio de 1935, vai comemorar 80 anos e a diretora Maria Helena Macedo Sampaio prepara uma programação para festejar a data. Recentemente, o prédio passou por uma profunda reforma já que o prefeito Raimundo Macedo assumiu o cargo encontrando a mesma escorada por estacas para não desabar. Em virtude da necessidade de uma reestruturação no estabelecimento, o município investiu recursos da ordem de R$ 331 mil e a escola ganhou uma pintura geral nas cores do município, nova cantina com depósito, forro em PVC, recuperação do telhado e das instalações elétricas e hidráulicas, bem como todo um reforço na estrutura.  Atualmente, são 320 alunos dos quais 30 especiais por integrar a proposta de inclusão social. Em recente contato com Raimundão, a diretora disse que a escola pleiteia como presente da municipalidade todo um revestimento cerâmico e ele prometeu executar tão logo seja possível. Trata-se de um dos mais antigos estabelecimentos de ensino de Juazeiro e integra o patrimônio arquitetônico do município estando bem ao lado do Memorial Padre Cícero que foi inaugurado mais de 50 anos depois.
Obs.: Convém salientar que esta celebração é devida a idade do edifício que atualmente abriga o o então Grupo Escolar, pois em verdade, o Grupo como escola, já tem 91 anos, tendo funcionado em outros locais, antes da construção do prédio referido.

NOVAS RUAS
Foram designados nomes oficiais para novas ruas abertas na cidade, conforme as leis abaixo:
LEI N.º 4450, DE 23 DE MARÇO DE 2015, pela qual fica denominada de RUA JOSÉ ALVES DE SOUSA, a rua projetada que inicia na rua Hilton Grangeiro Xavier e termina nos limites da casa de n.º 99, da rua Francisca Correia Cruz, no sentido Leste/Oeste, no bairro Leandro Bezerra, desta cidade de Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. AUTORIA: Vereador Rubens Darlan de Morais Lobo.
LEI Nº 4424, DE 31 DE DEZEMBRO DE 2014, pela qual fica denominada de artéria pública do Loteamento Conviver Life-II, nesta urbe, a RUA JOSÉ SOUSA ALVES – (Rua Projetada 21), com início na Avenida Edgar Alvino Leite, sentido leste/oeste, no bairro Aeroporto. AUTORIA: Vereador Rubens Darlan Lobo.

sábado, 28 de março de 2015

BOA TARDE (I)
Dou continuidade à publicação nesta página das pequenas crônicas que estão sendo lidas no Jornal da Tarde (FM Rádio Padre Cícero, 104,9 de Juazeiro do Norte) nos dias de segundas, quartas e sextas feiras, sob o título Boa Tarde para Você.
134: (23.03.2015) Boa Tarde para Você, Francisco Mendes Filho
O papa Francisco continua nos surpreendendo com os seus discursos, simples e diretos, como no pronunciamento no último sábado em Scampia, um dos bairros da periferia de Nápoles, tradicionalmente vinculado à máfia local, a Camorra. Guardo de você, Mendes, também um discurso contundente e muito claro sobre este abominável sinal, permanentemente vistoso em nosso país nos últimos tempos, especialmente na atividade política de parlamentos municipais, estaduais e federais, com a anuência de nosso voto. E olha que o Bispo de Roma foi particularmente elegante, diria mesmo – quase ingênuo ao dizer que "a corrupção é suja", e que "uma sociedade corrupta é uma porcaria", e que aquele que permite a corrupção não é cristão e também "fede". E como sempre fala, urbi et orbe, Mendes, o papa não deixou de nos incentivar na “luta contra o mal e a ter o valor e a coragem de ir pelo caminho do bem e da justiça, de ir adiante limpando a própria alma, a alma da cidade e da sociedade para que não exista esse cheiro putrefato que tem a corrupção". E era o que cabia mesmo como uma luva, a esta santa e objetiva investida ao nosso esclarecido sentimento de revolta, por parte de alguém que está muito acima de qualquer suspeição, para nos permitir algo que vá da reflexão necessária ao gesto concreto de nossa intolerância. Ontem, em matéria preciosa, Mendes, o programa Fantástico nos mostrou uma pista mais que razoável a merecer a nossa crença, no exemplo do Japão, com respeito a este combate sistemático à desonestidade e à corrupção, a partir da educação de nossos próprios filhos. Mas, sintomaticamente, este câncer maligno está tão visceralmente impregnado no cotidiano de nossas vidas que por todos os títulos é lamentável que o homem público brasileiro seja o réu indiscutível de todos os desvios de recursos pretensamente aplicáveis na educação deste pais. Há quem calcule, Mendes, que o ralo desta indescritível roubalheira atinja quase 70% de todos os montantes de valores aplicados nas transferências governamentais do FUNDEB - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, e que não chega à sala de aula. Juazeiro do Norte, teve em 2014 um repasse global do FUNDEB da ordem de 90, 4 milhões de reais, e a previsão é de que receba neste ano corrente 4,5% mais, numa estimativa do próprio governo fixada em 94,5 milhões. 
Atentar contra isto, e é assim que penso Mendes, é declarar a manifesta intenção de sequer estarmos interessados em honrar o necessário incremento de alunos em sala de aula, para permitir-lhes vida livre pelas ruas da cidade, na marginalidade, na violência, no crime e nas drogas. Tristemente, no nosso caso municipal, há gente sem escrúpulos que não hesitou em fazê-lo e a cometer isto que pelo menos para mim, como educador, não pode haver crime mais hediondo que esta atitude irresponsável de gestores que pratica toda sorte de desvios. Considero particularmente importante, Mendes, o que a Rede Globo deflagrou ontem, no dia mundial da água, na campanha Menos é Mais, para discutir, de forma ampla, como podemos gerar sustentabilidade para garantir para as próximas gerações as condições que temos hoje. Trata-se de falar de tudo que nos angustia, e não apenas do drama da crise atual da falta de água, aquilo que mais facilmente se vê e que sai pelo ralo do esgoto, mas tudo mais que nos falta por uma conduta defeituosa e que atenta contra a sociedade, ética e moralmente. Eu e você, Mendes, o Zé do Mercado, a Maria da Escola, o Chico da Praça, o vereador Tarso, o prefeito Raimundão, o governador Camilo, a presidente Dilma, enfim, todos, não temos outra chance, outra opção, senão estarmos do lado desta cruzada para merecermos a vida digna pela qual lutamos sem parar. Quando um dia o futuro nos cobrar sobre o que fizemos por esta dignidade, que não nos lembrem, como o poeta Francisco Otaviano: “Quem passou pela vida em branca nuvem. E em plácido repouso adormeceu. Quem nunca sentiu o frio da desgraça. Quem passou pela vida e não sofreu. Foi espectro de homem, não foi homem. Só passou pela vida, não viveu.”
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 23.03.2015)

 BOA TARDE (II)

135: (25.03.2015) Boa Tarde para Você, Sávio Leite Pereira
Vez por outra, felizmente, eu tenho a sensibilidade de manifestar zelo e gratidão pelo que tem sido esta construção generosa, extensa e muito valiosa, de muitas pessoas que contribuem para uma melhor história de minha terra. Isto tem acontecido, não somente pelas edições livrescas, mas por novas mídias eletrônicas que vão acumulando muitas páginas, em face da dinâmica destes recursos, o modo mais prático e barato de como podem ser dispostas e a forma democrática que se estabelece no acesso e na interatividade. Por isso mesmo, Dr. Sávio Pereira, cabe-lhe da nossa parte, embora com algum atraso, um agradecimento e um louvor à sua dedicação em vir participando conosco no blog do Portal de Juazeiro, tratando de questões da nossa história mais contemporânea. Quem se dispuser, acessando aquele endereço, vai se deliciar com prazerosos relatos, bem ilustrados com significativas imagens fotográficas de seu arquivo, desde aqueles com respeito ao Juazeiro dos anos 50, até estes últimos escritos, sob o título frequente de confidências políticas. Revendo estas matérias, constato que este arquivo já vai corporificando uma obra memorialística e, seguramente, não deixará de partir de todos nós que as lemos, gratificados, um incentivo para que você não perca a oportunidade de mandar imprimi-las em requintado volume gráfico. Aproveito também esta oportunidade, meu caro Sávio, para agradecer-lhe a gentileza de ter remetido em dias passados o arquivo eletrônico de um livro organizado pelo cineasta e produtor Marcello Laffite, com o apoio da Caixa Econômica, com bela e merecidíssima homenagem ao nosso José Wilker. Trata-se do título José Wilker: 50 anos de Cinema, um dos marcos da vida deste juazeirense tão ilustrado, José Wilker de Almeida, nascido entre nós em 20 de agosto de 1944, e falecido no Rio de Janeiro em 5 de abril de 2014, depois de ter sido festejado em vida como um dos mais importantes personagens do cinema, do teatro e da televisão deste país. Na verdade, o livro é o catálogo de uma Mostra de exposição restrita a público carioca, com curadoria do próprio Marcelo Laffitte, que busca celebrar a carreira do ator de cinema e TV através de uma seleção criteriosa de suas principais participações cinematográficas. A retrospectiva presta uma homenagem sincera a um dos maiores atores brasileiros e com isto a Caixa reafirma sua política cultural de estimular a discussão e a disseminação de ideias, promover a pluralidade de pensamento, mantendo viva sua vocação de democratizar o acesso à produção artística. Destaco particularmente a sua felicidade, Sávio, em abrir o volume com seu primeiro texto, delicioso, contando memórias de adolescência, histórias dos tempos iniciais da sua relação pessoal com Wilker, no Ginásio Salesiano e na vida cotidiana deste Juazeiro dos anos 50. Aliás, todo o volume, incluindo a revisão mais aprofundada da obra cinematográfica de Wilker é um extenso relicário de afetos, manifestados com grande sensibilidade em depoimentos de amigos, como Moema Cavalcanti, Marcos Flaksman, Joaquim Ferreira do Santos, Orlando Senna, Braz Chediak, Zé Celso Martinez Correa, Ney Latorraca, Aderbal Freire-Fillho, Hildegard Angel, Daniel Filho, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues, Zezé Motta, Lauro Escorel, Betty Faria, Lucélia Santos, Paulo Betti, Denise Saraceni, Maitê Proença, Sergio Rezende, Francisco Ramalho Jr, Lidia Franco, Claudio Rangel, Vera Holtz, Aracy Balabanian, Mariza Leão, Rodrigo Fonseca, Andréa Beltrão, Beto Brant, Lourdes Hernandez, Walter Carvalho, e Marçal Aquino. Lamento que este livro, tão maravilhosamente concebido e tão rico pelo painel que montou para contar toda a vida e a obra de Wilker tenha a circulação limitada aos espaços da Mostra. Não posso deixar de dizer-lhe, Sávio, que como você, imagino, estimo e desejo ardentemente que a Caixa Econômica Federal seja sensível a uma possível montagem desta mostra no Cariri, para os olhos, corações e mentes de nossa gente, tão plena de ardorosos admiradores do Wilker. Não seria pedir de mais para que não percamos a oportunidade de revê-lo, vivo e autêntico, magistral e grandioso, na arte que o consagrou para a eternidade de nossa memória.
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 25.03.2015)

BOA TARDE (III)
136: (27.03.2015) Boa Tarde para Você, Pe. Antenor de Andrade Silva
Em 1963, aluno do Ginásio Salesiano São João Bosco, eu fiz alguma coisa reprovável no comportamento em sala de aula, fato que gerou do professor de português a aplicação de um castigo para aprender a recitar uma das mais lindas poesias do poeta Casimiro de Abreu. Era o poema Meus Oito Anos, do poeta que se finou tão novo e deixou esta beleza de versos inesquecíveis: “Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais! Tantos anos afastado deste velho casarão de minha juventude, muitas vezes eu pensei neste fato, nestes versos e tudo mais que a vida me reservou daí por diante, sempre lembrando que o ginásio e estes versos eu cantei e cantarei para lembrar a minha própria existência. Logo mais, às 18:30 devo viver mais uma vez, um destes instantes de reencontro com estas saudades, para também saudá-lo, Padre Antenor, durante o lançamento de seu mais novo livro, Pe. Cícero: O Calvário de um profeta dos Sertões. Se não me distrai pelo caminho, este é o seu quinto livro, precedido pelos anteriores: Os Arquivos do Padre Cícero, de 1977, Cartas do Padre Cícero, de 1982, Padre Cícero - mais documentos para a sua história, de 1989, e Padre Cícero - sacerdote, médico e conselheiro, de 1992. Agora você nos trás este mais novo que se afirma por um mais amplo painel de releitura sobre o Pe. Cícero, feito com a propriedade de quem mergulhou profundamente no amplo documentário e na bibliografia que se construiu em mais de um século de estudos. Se duas ou três coisas se pode dizer de sua pessoa, padre Antenor, uma é fazer coro com a expressão de Núbia Ferreira que lhe reconhece no meio intelectual “como um dos importantes colaboradores da historiografia sobre instituições religiosas e educacionais, especialmente, com as suas publicações sobre o Padre Cícero e o Juazeiro do Norte.” Dirigindo este Colégio Salesiano em meados dos anos 70, quero crer que você foi tocado pela necessidade de explorar aquele rico acervo documental que até então somente servira a Ralph della Cava, para nele mergulhar de forma quase definitiva a ponto de ensejar a sua reabertura à pesquisa que tanto tem contribuído para a biografia sincera de nosso Patriarca. O seu livro trás algumas das questões inquietantes para todos aqueles que desejam aprofundar o conhecimento desta realidade de Padre Cícero e Juazeiro do Norte, especialmente através de indagações que se tornaram permanentes em nossas especulações. Vejamos algumas das que você aponta: Qual seria a fisionomia religiosa do Cariri e do Nordeste do Brasil sem a presença de Cícero Romão Batista no Juazeiro do Norte?  Como seria a situação social, política e econômica do Juazeiro sem a influência do padre? A história do Pe. Cícero seria diferente, se os Bispos de Fortaleza e Crato tivessem sido mais abertos, mais sensíveis a um dialogo vis a vis, presencial com o acusado? Que teria acontecido em termos religiosos, se o sacerdote tivesse se insurgido diretamente contra as normas de Fortaleza e Crato? O padre deveria ter esperado mais, ter consultado seu bispo e aguardado o parecer dele, antes de acreditar no episódio de Maria de Araújo como miraculoso? O fato de as duas Comissões de Inquérito terem conclusões diferentes não é sintomático? Alguma trama, algum cambalacho? Que aspectos do comportamento do Pe. Cícero nos parecem hoje, mais significativos? Sem Maria de Araújo e José Marrocos teria acontecido o “Milagre” do Juazeiro? Por que havia interessados em denegrir, a figura do Pe. Cícero? Concordo inteiramente consigo, pois “A história, queiram ou não, continuará se ocupando com as figuras polêmicas e queridas do pastor dos sertões e da beata Maria do Juazeiro. Um dia a verdade será totalmente esclarecida.” Desejo especialmente louvar e fazer-lhe um agradecimento particular pela missão que empreendeu, pois suas luzes e seu trabalho diligente marcaram toda uma geração de gente acadêmica que foi capaz de por novos olhares e novos sentimentos na riqueza dos personagens e dos fatos de Joaseiro. E não há dúvida alguma, Pe. Antenor, que esta mesma cidade que mereceu o grande entusiasmo dos seus verdes anos, ainda continuará a tributar-lhe o merecido reconhecimento a quem tão generosamente a isto se entregou e que se renova a cada novo livro que nos trás.
(Crônica lida durante o Jornal da Tarde, da FM Padre Cícero, Juazeiro do Norte, em 27.03.2015)


PADRE CICERO: NOVOS LIVROS
Na quinta feira, 26 e na sexta feira, 27, foram lançados três livros sobre Padre Cícero Romão Baptista.  Em Fortaleza, dia 26, na Livraria Cultura (Aldeota), foi lançada a obra Padre Cicero: Mitificação e desmitificação, de Fátima Oliveira Malahosky (Editora Prismas, SP, 169 páginas). O livro derivado desse belo trabalho apresentado com mérito e louvor, se intitula com muita adequação “Padre Cícero: Mitificação e Desmitificação”.  Ele é constituído de uma introdução, três capítulos e uma conclusão norteados por um aparato teórico bem definido e destinado a apontar as contradições da figura do pároco da cidade cearense Juazeiro do Norte, Cícero Romão Batista. Com esse roteiro, prima pela riqueza da literatura secundária, ou seja, do acerco crítico que descreve a vida e os eventos em torno do sacerdote, seja julgado inadequado por uns, ou ovacionado por outros, em todo caso, por aqueles que se dão o direito ou se arvoram do poder de julgar. A linguagem prima pela correção, é condizente com o conteúdo apresentado e proporciona uma leitura fluente, que torna agradabilíssima a assimilação do seu conteúdo mágico. O corpo temático envolve, fascina pela dose de exotismo, extraída dos eventos pretensamente míticos ou sobrenaturais, aqueles em torno da beata Maria de Araújo e o fenômeno hierofania do milagre da hóstia, isto é, pelos rasgos de um realismo maravilhoso, que tangencia o gênero fantástico. Sua autora é escritora, professora, fundadora da revista de informação cultural Café das Artes e mestre pelo programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.
Em São Paulo, dia 27, na Martins Fontes (Av. Paulista), foi apresentado o livro Os Sons do Adeus - Da Origem aos últimos Dias de Padre Cícero, de Gouveia de Hélias (pseudônimo de Expedito Alves Gouveia) (Editora Pasavento, 264 páginas). O livro foi fruto de uma paixão que o acometeu ao recolher da tradição oral informações interessantes, a maioria delas dentro de sua própria família, sobre a vida do sacerdote e sobre os grandes eventos acontecidos no Vale do Cariri. Esses subsídios da tradição oral juntados à pesquisa de campo o habilitaram a escrever sobre Padre Cícero, dando, porém, ênfase e primazia aos sertanejos daquelas eras e à poesia que nascia agreste de suas manifestações religiosas apaixonadas. Gouveia de Hélias nasceu em Redenção, cidade serrana do Estado do Ceará, estudou, na década de 1960, no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza – Seminário da Prainha – instituição por onde passaram figuras polêmicas de nossa história contemporânea como Padre Cícero Romão Batista e D. Helder Câmara.  Gouveia de Hélias deixou o Seminário e mudou-se para o sul do país onde cursou Filosofia na Universidade de São Paulo. Em 2010, na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo, lançou seu primeiro trabalho, o “Dias Sem Compaixão”, um livro onde contava histórias do mundo do cangaceirismo.
Em Juazeiro do Norte, também no dia 27, no Colégio Salesiano, foi lançado o livro Padre Cícero: O Calvário de um profeta dos sertões (Maqisa, 209 páginas).  O livro se inicia com o momento em que Padre Cícero se instalou na cidade, em 1872, em pleno regime Monárquico- republicano; desta forma, passa a falar sobre a Sociedade brasileira, para contextualizar as atividades religiosas, sociais e políticas do Capelão do Juazeiro, sem esquecer da questionada relação entre o Estado e a Igreja. Na segunda parte do texto encontra-se outro aspecto controvertido desta história. Utilizando as cartas do Padre Cícero faz importantes revelações sobre os dois Inquéritos que deram inicio a “uma saga plena de torturas morais e psicológicas, motivadas por correspondências entre Juazeiro, Fortaleza, Crato, Roma e outras cidades do Nordeste e Sul do pais”. Trata-se do momento em que o padre Cícero, mesmo fazendo de forma brilhante a sua defesa, não conseguiu evitar que fosse cassada sua atividade apostólica, o que o impedia de realizar, adequadamente o trabalho espiritual junto ao seu povo. Seu autor, Padre Antenor de Andrade Silva é um historiador engajado, nascido em Tabaiana, PB, graduado em Filosofia, Letras, Administração Escolar, História e Teologia. Estudou nos Seminários de Recife, Lorena (SP) e Pio XI (SP). Escreveu oito obras publicadas e algumas inéditas. Fez alguns cursos em Buenos Aires, Roma, Palestina e Inglaterra. Foi diretor do Colégio Salesiano em Juazeiro do Norte no período 1974-1976.

JUAZEIRO: LANÇAMENTO DE LIVRO
Participei na noite da sexta feira passada do lançamento do livro Padre Cícero: O Calvário de um Profeta dos Sertões (Maqisa, Recife, 209 páginas), de autoria do Pe. Antenor de Andrade Silva. Transcrevo abaixo o discurso de apresentação da obra.
Caríssimo Padre Antenor de Andrade Silva, Estimada comunidade salesiana, Meus senhores e minhas senhoras: Entre 1961 e 1964, tempo em que cursei o antigo ginásio na minha formação básica neste então Ginásio Salesiano São João Bosco, por diversas ocasiões, eu e outros colegas subíamos ao pavimento superior deste edifício, pois aí havia uma biblioteca, um auditório, e a residência dos padres. Em algumas destas oportunidades, chamava-nos a atenção um pequeno quarto, uma espécie de depósito que guardava alimentos, diversos materiais e muitos papeis velhos.

Em 1963, pelo então diretor, Pe. Gino Moratelli, numa manhã ensolarada, durante o seu bom dia costumeiro, nós fomos apresentados ao prof. Ralph Della Cava que estava na cidade para realizar a sua tese de doutoramento na Columbia University, em New York, e por algum tempo seria frequentador assíduo daquele aparente e insignificante ambiente, espremido entre apartamentos e a biblioteca.
Foi nesta ocasião que soubemos que ali se guardava parte importante da herança do Padre Cícero Romão Baptista, aquilo que tocara à Congregação Salesiana na partilha dos bens do Patriarca, e se configurava como o seu arquivo pessoal, e que com bastante surpresa para todos nós, começaria a ser revelado em novembro de 1970, quando do lançamento da edição americana de Miracle at Joaseiro.
Em 1975 a obra de Della Cava mereceu tradução e edição em português e assim passamos a saber com maior riqueza de detalhes o que aquele quartinho continha e de cuja riqueza jamais nenhum de nós suspeitou.
Mas, e também não sabíamos, Della Cava deixou, como fruto de seu diligente trabalho, uma organização de todo o documentário por ele utilizado em seus estudos, em dezenas de pastas, e assuntos sistematizados de acordo com os seus critérios de historiador e frente ao seu projeto de doutoramento.
No começo dos anos 70, já estava conosco o Pe. Antenor de Andrade Silva, dirigindo esta casa e vivamente interessado num melhor domínio sobre este documentário, cujo conhecimento ainda não chegava, senão a uns poucos privilegiados da convivência com o historiador americano.
Parte deste entusiasmo foi sua iniciativa de reproduzir expressiva porção daquele documentário, tendo para isto empreendido uma viagem e permanência em Brasília para fotocopiar (e era esta a tecnologia mais disponível para o propósito) em uma dezena de cópias que ele generosamente distribuiu entre instituições e pesquisadores, tendo eu mesmo sido um dos distinguidos.
Isso, felizmente, Pe. Antenor, foi o início, a disseminação de um vírus potentíssimo, se assim posso comparar, que nos motivou e nos pôs a caminho para tentar realizar uma das mais emocionadas jornadas de resgate histórico que se tem notícia em torno de um personagem histórico neste pais. 
Devemos lembrar que, com o tempo, mais de uma centena de pessoas e instituições terminaram por se envolver naquilo que sua iniciativa disparara, e que resultou em projetos de pesquisa, organização de acervos, artigos técnicos e científicos, e também de divulgação, elaboração de monografias, dissertações, teses, muitos livros, além da criação de instituições, com o foi o caso do Instituto José Marrocos de Pesquisas e Estudos Sociais, sem falar dos eventos marcantes de fóruns, simpósios, mesas redondas, palestras, conferências, e a formação continuada de muitos jovens pesquisadores.
Com imenso atraso, mais de 40 anos, é esta a oportunidade de lhe confessar e publicamente, um agradecimento pessoal, de grande valia para a relação de minhas dívidas contraídas ao longo da vida, particularmente referentes a esta mania de pretensamente ter me consagrado pesquisador das coisas do Juazeiro que de alguma forma nasce por sua deferência em me fazer participante desta partilha que você empreendeu e que num primeiro momento também contemplava a professora Luitgarde Oliveira Cavalcante Barros, então estudante de Mestrado na PUC-São Paulo, e que seria vitoriosa com o extraordinário livro A Terra da Mãe de Deus.
Lembro, especialmente, quando daqui de Juazeiro saímos com um imenso volume de documentos para reproduzir em Fortaleza, algo inusitado que dois meninos, tão jovens e inexperientes ganhavam a confiança do então diretor, para retirar daqui acervo tão precioso, sem a exigência mínima de um inventário, tal era a confiança depositada.
Você mesmo, Pe. Antenor, não ficou à margem disto, apenas como o gestor que era, o organizador de algo a se entender como de grande utilidade, como se fosse um daqueles surtos que nos ocorrem na vida, especialmente na juventude, e para os quais concorremos com toda a emoção, a paixão desenfreada que nos promove diante dos horizontes insuspeitos, na pesquisa e no conhecimento.  
Hoje estamos aqui para receber mais um dos seus livros, este quinto volume do seu projeto, sempre ativo, aqui iniciado há uns 45 anos, e que recebe o título de “Pe. Cícero: O Calvário de um Profeta dos Sertões”, que nos chega precedido pelos anteriores: Os Arquivos do Padre Cícero, de 1977, Cartas do Padre Cícero, de 1982, Padre Cícero - mais documentos para a sua história, de 1989, e Padre Cícero - sacerdote, médico e conselheiro, de 1992.
Em diversas ocasiões, momentos como estes, sempre nos ocorre a vontade de lembrar a sensível percepção de Pe. Murilo de Sá Barreto a nos testemunhar a grandeza histórica desta cidade e de seu povo. Pois bem, ainda lamentamos o quanto não nos foi possível avançar para constituir um grande acervo, de preferência como um Arquivo Público para esta cidade, de modo a preservar todos estes elementos que se configuram em dezenas de itens, como documentos, livros, fotografias, jornais, folhetos, gravações, vídeos, filmes, monografias, dissertações, teses, literatura de cordel, xilogravura, arte popular, folhetos, catálogos, boletins, correspondência, etc.
Deixo aqui esta insatisfação que temos porque isto, e me permita que assim possa referir, é parte de uma pauta que está inserida nesta missão salesiana como herdeiros do Pe. Cícero e que toca não somente a tarefa educacional com este colégio e o que mais possa ser semeado, mas também pelos sítios históricos que contemplam a Colina do Horto, o Museu Casa do Pe. Cícero e este acervo documental de que falamos, o famoso Arquivo do Padre Cícero. Creio piamente que a oportunidade é a de se pensar em algo mais, não mais episódico, mas institucional, para alargar mais ainda esta responsabilidade social candente e que coloca na atualidade equipamentos e instituições que congregam a visão atualizada dos filhos de Dom Bosco pelo mundo, e a atenção particular desta terra que os recebe, os abriga e os auxilia prazerosamente na sua missão evangelizadora.
Este seu livro mais recente está respaldado numa avaliação preliminar de Núbia Ferreira, tão conhecedora desta questão memorial dos filhos de Dom Bosco, exatamente ela que já nos deu para o conhecimento mais que aprimorado, a trajetória educacional deste colégio e dos seus mais experimentados educadores não deixando de referir a você como “reconhecido no meio intelectual como um dos importantes colaboradores da historiografia sobre instituições religiosas e educacionais, especialmente, com as suas publicações sobre o Padre Cícero e o Juazeiro do Norte.”
A obra que você nos entrega tem uma marca pessoal de revisar a história local, desde o pano de fundo de um contexto de sociedade brasileira, revisitando as relações de Estado e Igreja, dos quais não se dissocia a presença e o peso da Santa Sé, naquilo que você considera a pré-história dos factos do Joaseiro.
Por isso mesmo a sua narrativa esta coerentemente sintonizada com algumas das premissas eleitas nos estudos acadêmicos de que o movimento de Juazeiro influiu e foi influenciado pelos movimentos sociais de sua época, ao tempo em que aqui se constatou que o mundo dos beatos parecia criar uma Igreja dentro da Igreja.
É de grande valia o foco desta sua obra, enfatizando o Calvário que se constituiu a trajetória do Patriarca de Juazeiro, em toda a sua vida. Isto ainda vai comportar muitas reflexões, especialmente pelo passivo que se acumulou na interpretação e no reconhecimento de suas virtudes, como podemos ver na atualidade, em razão dos esforços para a sua reabilitação canônica.
A obra encerra algo de muito valioso e que nos remete à maturidade do seu entendimento sobre a biografia do personagem que não se contenta apenas no ajuntamento temporário de documentos e achegas para as pesquisas, mas percorre ao lado desta biografia heroica, com a inserção de documentos que suportam as análises necessárias e que desembocam na melhor compreensão de sua vida.
Considero particularmente importante a inserção dos anexos, especialmente os que derivaram de documento substancioso elaborado por Mons. Francisco de Assis Pereira, em consulta reservada à Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, em 2005 e que revela parte dos bastidores deste Calvário vivido pelo Pe. Cícero, até hoje, tantos anos após a sua ressureição. 
Por último, considero gratificante que sua inquietação ainda se debruce sobre questões que a atualidade impõe para que não sejamos apenas contadores e escutadores de histórias, procurando nas entrelinhas destes escritos e que respondem por indagações como estas que você nos faz (me permita aqui reler):
Qual seria a fisionomia religiosa do Cariri e do Nordeste do Brasil sem a presença de Cícero Romão Batista no Juazeiro do Norte?  Como seria a situação social, política e econômica do Juazeiro sem a influência do padre? A história do Pe. Cícero seria diferente, se os Bispos de Fortaleza e Crato tivessem sido mais abertos, mais sensíveis a um dialogo vis a vis, presencial com o acusado? Que teria acontecido em termos religiosos, se o sacerdote tivesse se insurgido diretamente contra as normas de Fortaleza e Crato? O padre deveria ter esperado mais, ter consultado seu bispo e aguardado o parecer dele, antes de acreditar no episódio de Maria de Araújo como miraculoso? O fato de as duas Comissões de Inquérito terem conclusões diferentes não é sintomático? Alguma trama, algum cambalacho? Que aspectos do comportamento do Pe. Cícero nos parecem hoje, mais significativos? Sem Maria de Araújo e José Marrocos teria acontecido o “Milagre” do Juazeiro? Por que havia interessados em denegrir, a figura do Pe. Cícero?
Apresento-lhe nossos parabéns, Pe. Antenor. Mais que isto, nosso agradecimento sincero por toda esta obra historiográfica que seu esforço construiu em tantos anos de pesquisas, leituras, reflexões e estes seus preciosos livros, como este último. 
Muito obrigado! É de coração que o fazemos.
(Discurso pronunciado no lançamento do livro Pe. Cícero: O Calvário de um Profeta dos Sertões, do Pe. Antenor de Andrade Silva, no Colégio Salesiano de Juazeiro do Norte, em 27.03.2015)